Um grito em nome da honra dos samurais

Cannes, em maio. Takashi Miike faz história como diretor do primeiro filme em 3D a participar da competição do maior festival do mundo. O filme é Ichimei (Harakiri, Death of a Samurai). Miike faria história, de qualquer maneira, por ousar levar a Cannes o remake de um filme que o próprio festival já premiara nos anos 1960.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2011 | 00h00

O Harakiri original é de 1963, de Masaki Kobayashi e está sendo lançado em DVD da Cult Classics. Kobayashi é dos grandes do cinema japonês. O maior? É temerário uma afirmação desse tipo, quando se pensa em tantos grandes. Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu. Nenhum foi mais engajado do que Kobayashi. Sua estética é essencialmente política, em filmes como a trilogia Guerra e Humanidade e o suntuoso Rebelião (1967), que bem pode ser considerado sua obra-prima.

No início dos anos 1960, após contar a história de Kaji, o idealista que sofre na pele os horrores da 2.ª Guerra no front chinês, Kobayashi voltou-se para o código de honra dos samurais. Na década anterior, esses guerreiros armados de espadas - como os pistoleiros nos westerns americanos - deram projeção internacional ao cinema do Japão. Criou-se o culto aos mocinhos japoneses. Kobayashi não foi propriamente na contramão da tendência, mas escolheu a desmistificação.

Tatsuya Nakadai, ator fetiche do cineasta, pede licença a um senhor medieval para cometer o suicídio ritual em seu jardim. É o fim do período Edo, o Japão unifica-se sob um poder central e os samurais tornam-se obsoletos. Os senhores não precisam mais desses exércitos de guerreiros para servi-los. Milhares de samurais ficam desempregados. Alguns, anunciando que vão se matar, na verdade querem uma chance.

Nakadai não está ali para se matar. Começa, em flash-back, a história do jovem ronin forçado a cumprir o ritual e a se matar com uma espada de bambu, porque a de ferro ele já fora forçado a vender. Mas não se trata também de uma simples vingança. Harakiri é um grito de revolta contra um sistema desumano que usa - e descarta - as pessoas. Filmando em rigoroso preto e branco, com imagens belíssimas, Kobayashi cria uma dramaturgia poderosa. Em Rebelião, ele foi ainda mais longe. Os dois filmes formam uma espécie de díptico sobre a honra dos samurais.

HARAKIRI

Direção: Masaki Kobayashi (Japão/1962, 133 minutos). Distribuição: Cult Classic.

Preço: 29,90.

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