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Um grande romance do mestre da prosa Saul Bellow

O norte-americano amplia seu estilo no divertido ‘O Legado de Humboldt’, sua obra mais completa

Vinicius Jatobá - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2013 | 20h06

Saul Bellow, grande mestre da prosa estadunidense do século passado, envelhece a cada ano com mais saúde: a contínua e dedicada reedição de sua obra revela que aquele que foi mestre em seu próprio tempo seguirá respondendo às inquietações de sua sociedade mesmo quando estas lhe parecerem alheias.

É uma distinção rara, pois Saul Bellow ainda responde, ferino e inteligente, à experiência norte-americana. Nele, pode-se encontrar a rispidez encardida e prosaica de Theodore Dreiser, os afrescos tensos ao redor de indivíduos desconfortáveis e conflituosos de Sinclair Lewis, e o flerte impressionista do olhar enamorado com a superfície ágil da cidade de James T. Farrell. Por Bellow, também pode-se entender e ler os preciosismos vocabulares de David Foster Wallace, a crônica amorosa do imigrante de Junot Díaz, e as belíssimas e ambiciosas radiografias culturais de Jonathan Franzen. Saul Bellow é tão clássico quanto um clássico pode ser: incontornável, e elucidativo.

Herzog, de 1964, foi livro que inaugurou o melhor momento criativo de Bellow. Em uma década, ele lançaria mais duas obras-primas. O controverso O Planeta do Sr. Sammler, em 1970, e o grande poema tonal O Legado de Humboldt>, em 1975. São histórias privadas de homens peculiares e convulsos. Moses Herzog, afetado pela descoberta da infidelidade recente da mulher, e pressionado por um prazo vencido para entrega de um ensaio acadêmico, começa uma correspondência frenética com as grandes mentes da história.

Artur Sammler é algo mais histriônico: sobrevivente do Holocausto, imbuído pela pressão de dar uma palestra na Universidade de Columbia acerca de seu drama, tem seu coração massacrado pelo fato de que os anos 1960 parecem não se importar mais com sua dor e valores. Na sua mente frenética, ele ensaia a grande palestra em que enfrentará o mundo presente com a verdade que esse mundo não está mais aberto a escutar. O leitor habita a mente desses homens notáveis, e o humor nasce da distância entre a forma como eles se veem e o que realmente são.

A tentação de eleger O Legado de Humboldt o grande romance de Bellow é enorme. Certamente é o mais completo, pois é o único em que Bellow amplia a estrutura a partir do qual seus livros normalmente se organizam: não mais o solilóquio de uma única consciência, Humboldt é o debate e o enfrentamento entre duas visões de mundo: a do poeta Von Humboldt Fleisher e a do romancista e narrador do livro Charlie Citrine. Se Herzog é a grande farsa de Bellow acerca da herança do pragmatismo emersoniano, e Sammler é a comédia de como os EUA fabricam, por conveniência, sua própria história, em Humboldt Bellow encena o desencontro de duas grandes energias culturais americanas: a liberdade e o desprendimento, a pureza espiritual da poesia de Humboldt, e o pragmatismo, o empreendimento com resultados dos romances de Citrine.

A grande piada do livro é que Humboldt escolhe Citrine para ser o artista que cuidaria de seu legado, e o que ele faz com esse privilégio é escrever um romance que faz sucesso comercial e vira peça na Broadway. A qualidade de poema do romance está em sua elegia a uma América cujo espírito original não apenas está perdido, como massacrado: a decadência de Humboldt parece impulsionar a carreira de Citrine, e a narrativa inteira revisita e reconfigura cenas e momentos do poema mais americano que os EUA produziu, Folhas de Relva.

Divertido e episódico, Humboldt é uma reflexão acerca da amizade e de como as circunstâncias e as conveniências separam as mentes e os destinos em uma América desencontrada.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

 

O LEGADO DE HUMBOLDT

Autor: Saul Bellow

Tradução: Rubens Figueiredo

Editora: Cia. das Letras (528 págs., R$ 68)

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