Um grande filme que nasce

Infância Clandestina é promissora parceria do Brasil com a Argentina

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2011 | 03h07

E se o próximo vencedor do Urso de Ouro, da Palma, quem sabe do Oscar, estiver sendo feito aqui mesmo em São Paulo? Os maiores festivais do mundo estão interessados no longa que assinala a estreia do argentino Benjamin Avila na ficção. Ele já é autor de um documentário - Nietos - que virou bandeira da organização das Mães da Plaza de Mayo. Infância é parcialmente autobiográfico. Conta a história da família do diretor. É um filme que você pode começar a esperar para ver.

É uma coprodução tripartite, entre Argentina, Espanha e Brasil. A sócia brasileira é a Academia de Filmes, uma empresa sediada na Avenida Imperatriz Leopoldina, a dois passos do Alto da Lapa. Por trás daquele muro alto, existem estúdio, ilha de edição e toda a parte jurídico/administrativa de uma empresa que se consolida. A Academia produziu, por exemplo, Amanhã Nunca Mais e o filme de Tadeu Jungle é muito bom, apesar das vozes discordantes. O elenco, então, é ótimo - Lázaro Ramos, Milhem Cortaz e Maria Luiza Mendonça. Ela foi melhor atriz coadjuvante no recente Festival do Rio.

O elenco de Infância Clandestina também é excepcional. É integrado por Ernesto Alterio, Cesar Trancoso e Natalia Oreiro. Ela virou estrela na TV argentina e inicia uma carreira fulgurante no cinema. E o filme tem o garoto Téo Gutiérrez Romero no papel do diretor. Avila baseou-se na própria vida. A essência do filme é toda real, mas Avila e seu roteirista brasileiro, Marcelo Muller, filtraram a realidade pela ficção. A história é deste garoto que volta com os pais, integrantes da guerrilha - da militância política -, para o que se pode definir como uma existência 'normal' na Argentina. Ou será melhor dizer: comum?

Ele entra para a escola, vive o primeiro romance. Mas, justamente quando o garoto se sente mais integrado, os pais, de novo, têm de pegar em armas e partir. Avila e Muller conhecem-se há 12 anos. Ambos se cruzaram na Escola de San António de Los Baños, em Cuba. "Eu fui cursar direção e o Benjamin coordenava o setor." Eram ambos muito jovens. Avila, com 27 anos, Muller, 21. Depois do curso, seguiram amigos, correspondendo-se e trabalhando juntos. O roteiro de Infância Clandestina começou a ser escrito em 2005. Ganhou prêmios internacionais. O filme, já editado mas não finalizado - o repórter viu o que se chama de versão 'offline' -, passou com sucesso pelo Cine en Construción, no Festival de San Sebastian. Criou-se o bochincho. Berlim, Cannes, está todo mundo de olho em Infância Clandestina.

Avila cria cenas de sonho, mas elas não são oníricas. As cenas de violência são animadas - na versão offline ainda são esboços. Uma das mais belas cenas - a mais bela? - é o diálogo do pequeno protagonista com o tio, Ernesto Alterio. Falam de chocolate, mas o subtexto são 'las chicas' (as meninas). O tio é pura ficção, como a garota que é o primeiro amor do menino. Um acerto de contas de Benjamin Avila com seu passado. Na ficção, o garoto tem uma irmã pequena. Na realidade, ele tinha também um irmão. Características de ambos foram utilizadas para criar um só personagem, o protagonista. No final, um letreiro informa que a irmã, um bebê, desapareceu. Apesar das buscas de Benjamin Avila e de sua avó, nunca foi encontrada. Pode ser uma das centenas, milhares de crianças adotadas ilegalmente com a chancela dos militares. É, como sabe o cinéfilo, o tema de A História Oficial, de Luiz Puenzo.

O filme de Puenzo ganhou o Oscar e ele agora coproduz, por meio de sua empresa Historia Cinematografica, Infância Clandestina. Durante todo o filme, o jovem Teo esconde-se por trás de uma identidade falsa. O filme dá seu testemunho sobre uma época conturbada, fala de família, de afeto. Expõe ressentimentos. Numa cena, o menino acusa os pais de lhe estarem roubando a vida. Tudo isso está presente e tece uma teia complexa, mas Avila resume tudo. Para o autor, seu filme "é sobre identidade". No Brasil, a Academia de Filmes está colocando dinheiro próprio na produção. A empresa está inscrita na Ancine e busca patrocínio. "O filme é pequeno mas especial e estamos pensando num lançamento de guerrilha, que seria bem de acordo com sua proposta", diz a produtora associada da Academia, Mariana Ricciardi. Guarde o título - Infância Clandestina promete causar.

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