AP
AP

Um gênio moderno inspirado pela tradição

Considerada por acadêmicos a melhor introdução à vida e à obra do escritor, 'A Era de T.S. Eliot 'dá início à publicação de seus ensaios e de textos do autor de sua biografia, o filósofo Russell Kirk

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2011 | 03h00

A melhor biografia de um conservador só poderia mesmo ter sido escrita por outro conservador. Assim, A Era de T.S. Eliot, que dá início à publicação de outras obras do biógrafo Russell Kirk e do biografado pela Editora É, vem acompanhada de um subtítulo - A Imaginação Moral do Século 20 - que sintetiza o propósito do escritor, amigo do poeta norte-americano que, crismado na Igreja Anglicana, foi declarado cidadão britânico em 1927: para Kirk, não há outro jeito de ler o autor do poema A Terra Desolada (The Waste Land) sem considerar sua conversão, ou reconciliação, com o cristianismo. Ash Wednesday (Quarta-Feira de Cinzas) e Four Quartets (Quatro Quartetos), sustenta Kirk em sua biografia crítica, seriam o "ápice das intuições em um mundo discursivo" (o moderno) que chega ao esgotamento com a decadência da fé.

Thomas Stearns Eliot (1888-1965) e Russell Kirk (1918-1994) foram amigos íntimos e tinham muito em comum, segundo a mulher do biógrafo, Annette Y. Kirk, que hoje dirige o Russell Kirk Center em Mecosta, Michigan, e esteve na quinta-feira, em São Paulo, para o lançamento de A Era de T.S. Eliot, que precede a nova tradução do ensaio Notas para a Definição de Cultura, escrito pelo poeta nos anos 1940 (leia abaixo texto de Daniel Piza). Dois outros livros de ensaios de Eliot, A Ideia de uma Sociedade Cristã e Outros Escritos, e O Uso da Poesia e o Uso da Crítica: Estudos Sobre a Relação entre Crítica e Poesia na Inglaterra, serão publicados pela mesma editora no próximo ano junto a mais três volumes de Russell Kirk, um deles ainda sobre a obra de Eliot, A Mentalidade Conservadora: De Edmund Burke a T.S. Eliot. Os dois outros títulos programados são Edmund Burke: Redescobrindo um Gênio e A Política da Prudência.

Entre todos, porém, o mais ambicioso é mesmo A Era de T.S. Eliot (de 1971). Trata-se, de acordo com o prefaciador Alex Catharino, da obra-prima de Kirk, filósofo político, historiador e crítico literário norte-americano cuja tese de doutorado, The Conservative Mind, trouxe para a modernidade o pensamento do filósofo irlandês Edmund Burke (1729-1797), influenciando conservadores americanos. Kirk, diz sua viúva, era "tímido como Eliot e, a exemplo do amigo, acreditava firmemente que toda crise cultural começa com a decadência da fé religiosa". Foi a crença numa ordem transcendental que aproximou os dois, em 1953, segundo ela. A conexão espiritual foi imediata. Kirk, conta Annette, escreveu uma crítica da peça The Confidential Clerk (O Secretário Particular), vista como uma farsa malsucedida por outros críticos, e o poeta enviou uma carta ao filósofo, elogiando o texto e sua profundidade. "Além disso, ambos passaram por conversões e gostavam de fantasmas, como fica comprovado tanto nos contos góticos de Russell como nos poemas de Eliot", conclui ela. Outro ponto (trágico) em comum: Kirk estava lendo Ash Wednesday para seus alunos enquanto sua casa em Mecosta pegava fogo, em 1975.

O biógrafo, apesar de conservador, recusou cargos públicos oferecidos por Nixon e Reagan. Alex Catharino lembra que "ele ainda censurou a atuação do senador McCarthy na caça aos comunistas e foi contra a intervenção bélica dos EUA no Vietnã". A respeito do último conflito, a viúva do pensador diz que a única coisa positiva sobre essa guerra passa pela relação de suas filhas com a meia centena de refugiados vietnamitas que recebeu em sua casa, ensinando as garotas a conviver com a alteridade dos asiáticos, que vinham de uma "terra devastada" pela guerra.

Annette Kirk confirma que, até mesmo pela conversão do marido ao catolicismo, The Waste Land era o poema de Eliot que Russell Kirk tinha como seu predileto - e isso fica evidente na leitura de sua biografia crítica. Kirk não o analisa como o lamento poético de um homem que via seu casamento (com Vivienne Haigh-Wood) naufragar, mas como um testemunho profundo de alguém que "havia penetrado nas causas de uma desordem comum à alma do século 20". O poema, observa Kirk, poderia ter sido "menos coerente e mais enigmático" se Eliot não tivesse permitido os cortes feitos por Ezra Pound (o poema era duas vezes maior quando o autor o submeteu ao amigo, em 1921). Na interpretação do biógrafo, no centro de Waste Land está a lenda do Santo Graal. Contrariando os críticos mais hostis e agnósticos, Kirk afirma que a intenção de Eliot não era a glorificação do passado para condenar a degradação do presente, mas justamente mostrar que a irrigação da "terra desolada" passava necessariamente pelo cruel processo de "regeneração" anunciado na primeira das cinco partes do poema.

E essa regeneração, segundo o biógrafo, talvez não tivesse sido possível em território americano. As verdadeiras origens de Eliot como pensador social, defende Kirk, estão ligadas à experiência inglesa de sua conversão. Na Inglaterra, conclui o biógrafo, Eliot encontrou uma tradição digna de ser defendida, adotando a causa conservadora. O grande poema The Hollow Men (1925), que ele classifica como "sobras" de Waste Land, seria o ponto final de uma vida de dúvidas desse ser à beira do abismo, como ficou Eliot com a progressiva instabilidade mental de sua mulher Vivienne. Kirk nega-se a aceitar a conclusão de outros críticos, que enxergam no poema um manifesto de profundo ceticismo, de descrença mesmo na espécie. Tampouco afirma que se trata de uma afirmação do triunfo do espírito. Os "homens ocos" de Eliot, que, segundo Kirk, evocam o Kurtz, de O Coração das Trevas, de Conrad, temem, sim, encontrar os olhos de Cristo, "que exigem arrependimento e provação para a regeneração".

Os anos de transição de Eliot, entre 1925 e 1930, são vistos pelo biógrafo não como um período improdutivo, em que o poeta deixa de publicar grandes obras para se dedicar à elaboração de ensaios e trabalhar como editor da revista Criterion (que circulou até 1939), mas como uma etapa decisiva em sua jornada em direção à fé cristã, ele que "escapulira do unitarismo" da Nova Inglaterra para se tornar um católico anglicano, escandalizando sua amiga Virginia Woolf e o grupo de Bloomsbury. Muitos críticos associam essa conversão religiosa à política e ao nascente fascismo, evocando a simpatia que Eliot tinha pelo monarquista francês Charles Maurras (1868-1952), da ultraconservadora organização Action Française. Kirk lembra, na biografia, que, em 1929, na mesma Criterion, Eliot escreveu não só contra os fascistas como contra os comunistas. Nem por isso o esquerdista George Orwell deixou de lhe prestar homenagem. O biógrafo conta que, em 1942, num programa de rádio, Orwell (que não gostava de Quatro Quartetos) confere a Eliot o mérito de ter inspirado toda a literatura inglesa do século 20, trazendo de volta ao território europeu o sentido de história e da tragédia.

Kirk tampouco admite as acusações de antissemitismo contra Eliot. A mulher do biógrafo lembra que o poeta trocou cartas com o filósofo judeu Horace M. Kallen (1882-1974), de quem foi grande amigo, garante ela. Eliot era também anti-imperialista, segundo a biografia do marido. Enquanto os jornais como o Daily Express e o Times defendiam a invasão da Abissínia, em 1935, Eliot usou a Criterion como voz de oposição à ruína provocada pelos invasores nas tradições culturais dos povos africanos. A peça de Eliot, Murder in the Cathedral (Assassinato na Catedral), justamente de 1935, falava indiretamente de regimes totalitários, ao mostrar o confronto entre a alma e o Estado, elegendo o assassinato do arcebispo Thomas Becket na Catedral de Canterbury, em 1170, como metáfora da luta do indivíduo contra o poder totalitário.

Parte da peça foi cortada e transformada no poema Burnt Norton, que simboliza um dos quatro elementos (o ar) em Four Quartets, de 1943 - nesse prólogo, ele fala de uma casa abandonada e de um território invisível aos comuns mortais, uma aldeia que não está viva nem morta (Eliot acreditava que vivos e mortos fazem parte da mesma comunidade e reconheceu, em 1937, numa igreja do século 13, a Saint Michael, o lugar onde repousariam suas cinzas). A propósito, East Coker, o segundo elemento (terra) dos Quatro Quartetos, é um lugar no sul da Inglaterra com casas de fazenda e telhados de palha. As primeiras linhas do poema falam de um começo que também é o fim nessa terra em transe - e transição.

O que a biografia crítica de Russell Kirk tem de mais espantoso - além de ser reconhecida como a melhor introdução à vida de Eliot - é a extrema aversão que ambos, biógrafo e biografado, tinham ao conservadorismo doutrinário e ideológico, como observa, na introdução, Benjamin G. Lockerd Jr. O sentimento trágico da vida não impediu que o poeta, reverente à sabedoria ancestral, fizesse dela um exercício de "imaginação moral" (termo cunhado por Kirk) contra as visões infernais (ou idílicas, como prefere o biógrafo) do mundo moderno. A boa literatura não é a da razão discursiva como única via para se chegar à verdade, mas a da intuição de um homem de fé. Kirk, com desconcertante sinceridade, diz que Eliot não pode ser entendido à luz dos humanistas, porque seria, então, necessário ignorar sua evolução literária e as crenças que governam o poeta - incompreendido por seus pares, segundo o biógrafo.

A ERA DE T.S.ELIOT

Autor: Russell Kirk

Tradução: Márcia Xavier de Brito

Editora: É Realizações

(656 págs., R$ 99)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.