'Um gênero que renega a si mesmo', por Walter Siti

Entre todos os gêneros literários, o romance é o único que tem necessidade de renegar-se a si mesmo. O século XVIII, aquele em que o gênero se consolida, está repleto de romances que negam sua natureza: "hoje, o mundo se acha tomado de romances e de contos de aventura em tal grau, que é difícil uma história fatual ser tomada por verdadeira", escreve Defoe no prefácio a Moll Flanders; "esse romance não é um romance", escreve Rousseau no segundo prefácio de A nova Heloísa; "mas isso não é um romance", assegura Diderot em Jacques, o fatalista. Já no final do século XVII, Madame de La Fayette, escrevendo ao cavalheiro de Lescheraine, falava acerca da Princesa de Clèves, "não é de forma alguma um romance: são, exatamente, algumas memórias"; e, ainda no final do século xix, os veristas se recusam a chamar de romances os seus textos (Louis Desprez, defendendo-se no processo contra Autour d'un clocher, declara em aula: "a palavra romance não convém mais aos nossos estudos sociais").

26 de setembro de 2009 | 16h00

 

"Se este fosse um romance"; "não como ocorre nos romances" etc., tornam-se a tal ponto lugares-comuns que alguns romancistas fazem uma reivindicação de segundo grau: contrariamente àquilo que todos dizem, o meu, em vez disso, é justamente um romance. "Se tu és algum deles, a quem basta dizer que são verdadeiros os acontecimentos para que neles acreditem, ou a quem não seja admissível gozá-los porque são falsos, és por demais sério, por demais crédulo, e não escrevi para ti", assim Giovanni Ambrogio Marini, no prefácio a Calloandro fedele, demonstra o orgulho pela própria invenção; com mais malícia iluminista, Laclos adverte, "não garantimos a autenticidade desta coletânea, pois temos fortes razões para crer que se trate apenas de um romance", e acrescenta que as personagens das Relações perigosas manifestam tão maus costumes, que "é impossível supor que tenham vivido em nosso século".

 

Os paratextos (prefácios, notas, posfácios, advertências do editor etc.) são usados para desculpar-se, para justificar-se. Os motivos pelos quais o romance envergonha-se de si mesmo são concretamente dois: 1. o romance provoca nos leitores devastações psicológicas e, no grau máximo, faz enlouquecer; 2. o romance é conspurcado pelo dilúvio de romancistas péssimos e superficiais. Assim, quando o Berger extravagant se apresenta como "antirromance" e o Ercole tedesco, de Bucholtz, como "romance anti-Amadis", isso se deve ao primeiro motivo; quando Jacques, o fatalista ou Tristram Shandy pensam em si mesmos como "antirromances", fazem-no sobretudo pelo segundo motivo.

 

Na verdade, tem razão Gotthard Heidegger, um pastor luterano, autor de uma invectiva proferida em 1698 contra os romances: "um romance sempre se reduz à sátira venenosa de um outro". Haveria As relações perigosas sem A nova Heloísa, ou A princesa de Clèves sem Astrée, ou Anna Kariênina sem Madame Bovary?

 

Comecemos pelo segundo motivo: o romance é, desde o início de sua história, e onde quer que tenha aparecido, um gênero desacreditado. Difundido de modo notável no mundo grego, em pouquíssimos casos os romances chegaram até nós, porque eram indignos de consideração e de comentários, e escritos geralmente sobre bases péssimas. Na literatura chinesa, enquanto os livros de poesia e os ensaios eram conservados com grande escrúpulo filológico, os romances foram mutilados e sofreram inserções de toda ordem. Os literatos, que não obstante os escreviam e compravam, ter-se-iam sentido menosprezados quando lhes reconhecessem a paternidade.

 

Aristóteles, na Poética, não fala dos romances; Horácio, na Ars poetica, silencia sobre eles; Tasso os considera um desvio da epopeia; Boileau, tocando de leve no assunto, com uma condescendência que é pior do que o silêncio, diz que em um romance frívolo pode-se perdoar tudo porque nada se pode pretender, basta que, transcorrendo, divirta. Ainda em 1774, von Blanckenburg, perguntando-se por que não teria havido até aquele momento na Alemanha uma reflexão crítica sobre o romance, responde "porque se acreditou que não valesse a pena refletir sobre um gênero de escritos voltados apenas ao entretenimento das massas". Sem leis nem regras, sem sequer necessitar daquele pouco de técnica necessária para os versos, o romance serve para qualquer um e qualquer um pode escrevê-lo; "a composição de romances, ao contrário, requer apenas papel, pena e tinta, e a capacidade manual de servir-se deles", assim escreve Fielding em Tom Jones. Muitos dos romances processados no correr dos séculos são de jovens desenfreados, que "escrevem aquilo segundo seu capricho […] não sabem nada, escrevem segundo o que lhes vem à cabeça", como lamenta o núncio apostólico Francesco Vitelli, denunciando em 1642 à Cúria romana o Corriero svaligiato, de Ferrante Pallavicino. A acusação geral é que os romances baixam o nível cultural, promovem a curiosidade e o mexerico em prejuízo da "littérature savante". Os romances acabam com o hábito de pensar: "não se relê um romance", escreve Vauvenargues ainda em 1745.

 

Em média, os romances custam menos do que outros livros, têm grandes tiragens e, portanto, dependem do índice de aceitação do público. Tasso conta que o padre Bernardo decidira compor o Amadis com base numa única ação, segundo as regras de Aristóteles, mas ocorreu que "quando ele começou a ler, os aposentos estavam cheios de gentis-homens que ouviam, mas, ao fim e ao cabo, todos haviam desaparecido; disso deduziu que a unidade da ação era pouco agradável por sua natureza". O fato de "agradar ao vulgo" é a acusação que Trissino dirige ao Orlando furioso, e Tasso admite, escrevendo a Scipione Gonzaga, haver procurado na Jerusalém libertada "o aplauso dos homens medíocres". Em 1642, em Gênova, Anton Giulio Brignole Sale se apresta a publicar os primeiros quatro livros de sua Storia spagnola, temendo que "a comichão de tais composições" deixe de "prurir", candidamente intentado a "secundar o curso da torrente, enquanto durar". O romance do século XVIII inglês seria impensável sem a busca do sucesso de público: o próprio Fielding, que é o mais culto e que tenciona reagir ao descrédito do romance, admoesta que "um autor deveria considerar-se não como um senhor que dá um banquete particular ou beneficente, mas como quem dirige um restaurante". Certamente, não faltam defensores do romance (e romancistas) que tentaram reabilitá-lo aproximando-o da epopeia e da tragédia, ou que afirmam,

 

como Pierre-Daniel Huet em 1670, que um romance "não é julgado pelo número, mas pela competência de quantos o estimam". É necessário, porém, chegar a Rousseau para que se ouça qualquer um dizer que "um romance deve ser vaiado, odiado, feito em pedaços pelas pessoas elegantes". Nos séculos XIX e XX, um setor do romance se torna um gênero de elite, mas um outro setor muito amplo continua a ser um gênero de massa: as acusações que se faziam ao romance são as mesmas que ora se fazem à ficção televisiva.

 

As autoridades civis e religiosas, condenando o romance, sempre e em toda parte estiveram preocupadas com sua ampla difusão (tanto é verdade que um leitmotiv nas alocuções dos advogados de defesa é que, ao contrário, cada romance custa muito, e é escrito de maneira tão difícil, que não está ao alcance dos incultos); para proteger os fracos da obscenidade e da sedição, naturalmente, mas também (e nisso tiveram sempre como aliados os pedantes da academia e os críticos da alma bela) para defender a honra da cultura contra a vulgaridade de um círculo vicioso que, a pretexto de se adequar à demanda, acaba por perverter o gosto das massas mediante uma oferta de qualidade inferior.

 

A se fazer bem as contas, justamente a vocação que tem de obedecer ao prazer dos leitores é que leva o romance para perto daqueles centros delicados em que o prazer entra em atrito com a realidade; sua vulgaridade, em suma, é condição daquela perspicácia antissistemática que constitui sua força; costear (e cortejar) o "discurso dos ignorantes" favorece as "intensidades livres" (como as chama Gianni Celati) do romance, e lhe promove uma forma particular de consciência que consiste, mais do que num generalizante "eu penso", numa "série de 'eu sinto' que é fruída por descontinuidade". A concessão proteiforme e indisciplinada às dobras do presente, o "não ter a honra", impele o romance a territórios pantanosos em que os outros gêneros não penetram. Exemplares são, acerca disso, as vicissitudes da língua; o desmazelo linguístico, que desde o início lhe é atribuído, abre as portas à "língua comum", entendida como adequação entre uma personagem e seu modo de falar - do "latim dos libertos" na "Ceia de Trimalquião", passando pela grosseria engraçada nas Facezie de Poggio Bracciolini, que foi o humanista descobridor da "Ceia" ("há coisas que não posso dizer de modo mais elegante, porque devo me referir a elas como as disseram as personagens que introduzi nessas conversas"), até a atenção dos romances epistolares do século XVIII à conservação das imperfeições linguísticas dos remetentes etc.

 

"A publicidade clamorosa e romântica é uma perigosa sugestão aos espíritos fracos ou enfraquecidos. Eu disse o mesmo para as tragédias passionais a dois"; esse telegrama de Mussolini, de janeiro de 1926, endereçado aos diretores de jornais e não aos romancistas, atesta que o peso da repressão já se deslocara; o romance não assusta mais porque é lido por uma minoria. Ao mesmo tempo, atribuindo aos "fatos relevantes" o mesmo influxo maléfico que sempre foi censurado nos romances, Mussolini involuntariamente faz o melhor elogio daquele "romance potencial" que todo o tempo se recusa à própria institucionalização como gênero, e que obstinadamente tenta reduzir (sem anular) a distância entre o acidente informe da vida e o abstrato absoluto da beleza.

 

Em 1735, père Bougeant distinguia entre "Basse" e "Haute Romancie"; mas, desde suas origens, o romance foi marcado por um destino de duplicidade. Aquiles Tácio e Heliodoro são já romancistas "reflexivos", que jogam ironicamente com os mecanismos triviais do gênero; o mesmo se diga do enorme esnobismo de Petrônio. Por isso, o romance se renega a si próprio, porque deve buscar a própria profundidade virando-se do avesso como uma luva. Nos Discorsi dell'arte poetica, Tasso teoriza acerca da possibilidade de um nível duplo de escrita, capaz de atrair quer o vulgo quer os "entendidos".

 

Poder-se-ia afirmar que até mesmo o realismo nasce no romance em virtude dessa "obsessão de duplicidade": não é a Loucura de Erasmo que diz que sem as ilusões, sua dádiva, "por trás de Minerva se encontra uma porca"?  Tal será a experiência do pobre Dom Quixote, mas já o autor refinado do Lazarilho purgava e parodiava nos infortúnios do pícaro os sonhos de aventura "nobre". A grande voga do Dom Quixote no século xviii inglês relaciona-se ao fato de que a forma modesta e agressiva do novel se legitima no contraste paródico com os preciosos in-fólio dos romance franceses. Uma vez fixado que o nível trivial do entretenimento é o da aventura fabulosa e elevada, o problema do realismo moderno é sobredeterminar o cotidiano para torná-lo significativo e simbólico sem recorrer aos "truques" da fábula. A oposição "corriqueiro/extraordinário" não é senão um caso particular da oposição "verossímil/maravilhoso". Se uma escritora de romances como Mademoiselle de Montpensier foi obrigada a desdobrar o lugar exótico e fabuloso de Paflagônia na mais conhecida Paris ("nada se parecia mais com a place Royale do que a praça onde estava o seu palácio"), nas Cartas de Valincour sobre a Princesa de Clèves se faz notar que a recusa "extravagante" de casar Némours transporta a protagonista "ao reino dos Amadis", e Charles Gildon critica Defoe, dizendo que, no fundo, o seu Robinson Crusoé "é só um romance". O autor, escreve Smollett no prefácio a Roderick Random, "representando cenas familiares de pontos de vista divertidos e incomuns, as investe do atrativo da novidade, ao passo que em todos os particulares se refere à natureza"; mas Rousseau pergunta a si mesmo, em A nova Heloísa, "vale a pena registrar o que alguém pode ver todos os dias em sua casa, ou na casa do seu vizinho?". A resposta que o romance ocidental realista se dará a si mesmo será a psicologia, o "caráter surpreendente e insondável do coração".

 

Duplo por natureza, se o trivial é identificado na cansada repetição de estereótipos pseudorrealistas, eis que o romance reivindica seu próprio direito à fantasia: é o caso, obviamente, de Roussel ou de Borges, mas também de Blixen e de Morante (sem contar o "renascimento do romance" que foi provocado pelo entrecruzamento de tradições fabulatórias extraeuropeias, e o "romance coagido" produzido no Leste Europeu como reação ao otimismo censório e programático). Gênero bastardo e "parvenu", mas também imperialista, o romance contamina e macula os gêneros nobres (a tragédia, a lírica) com as próprias necessidades de banalidade, mas contemporaneamente corrompe as escrituras "positivas" (a história, o sermão moral) com os infantilismos do "querer ser". Não errava, pois, em demasia, o abade Porée, na conferência que fez contra o romance apresentada no Collège Louis-le-Grand em 1736 (e traduzida ao francês para que também as mulheres a pudessem ler): "[os romances] com seu contágio estragam todos os gêneros literários com que mantêm alguma relação".

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