Um futuro sem palavras

Em Mockinpó, o Grupo 59 abrasileira texto de Peter Weiss

O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2011 | 06h08

Mockinpó é um cidadão simples, alheio às questões graves da vida social. Sua existência prosaica explode ao ser preso sem maiores explicações quando apenas comprava jornal. Ele, exemplar incolor da classe média, conhecerá então aquilo que só sabia de ouvir dizer, como um eco longínquo do que sucede nas periferias, nos pontos de ônibus afastados. Nos lugares onde, nas batidas da polícia, qualquer um vira "o elemento". Lá na morada da bala perdida. Mockinpó vai descobrir, na alma e no corpo com um pé acorrentado e a comida que chega cuspida pelo carcereiro, ser agora um Jó real e contemporâneo; e também entenderá como funcionam os mecanismos da lei para os mais fracos, idem os órgãos administrativos, a religião e - acontece às vezes "irmão" - a própria família.

Cai nas mãos de guardas violentos, advogados corruptos, perde o emprego, os direitos trabalhistas acumulados e, por fim, é abandonado pela mulher. Essa via dolorosa compõe o lamento e o canto de Mockinpó, a versão teatral brasileira, em samba/choro e hip hop, da peça Como o Senhor Mockinpott Foi Libertado dos Seus Tormentos, de Peter Weiss (1916 -82), um dos melhores e mais combativos autores da língua alemã da segunda metade do século 20. O original forma um painel satírico e grotesco trançado em invenções linguísticas e referências ao folguedo de feira em meio a melancólicos cantos sobre fatos cotidianos.

Weiss escreve em tom de absurdo tragicômico, frases telegráficas com gírias, cacoetes verbais dos burocratas, retorcendo-lhe o sentido, tornando tudo uma espécie de tartamudear de duplo sentido. A anti saga de Mockinpó-Mockinpott é o retrato de um indivíduo perdido entre a luta de classes e os interesses corporativos.

Quase toda a riqueza literária de Peter Weiss está mantida na versão brasileira de Camilo Schaden que soube procurar equivalências expressivas ao original que é feito em rimas e no qual o dramaturgo, como o conterrâneo Bertolt Brecht, transitou entre o alemão culto contemporâneo, arcaísmos e expressões dialetais. Trabalho maleável que a encenadora Cláudia Schapira e companheiros do Grupo 59 de Teatro põem em cena com um toque abrasileirado, mestiço. O resultado tem a força satírica e de denúncia dos quadros, desenhos e caricaturas de Georg Grosz e Otto Dix. Há vibração de cores, vozes, movimentos, pele mulata, olhos verde-azuis, batida de samba e pancadão do rap e, de repente, o seu contrario: os movimentos em câmara lenta. Tudo realizado por um elenco vital. É pena que a identificação dos intérpretes seja impossível (estão listados sem indicação de papéis) ao contrário do justo destaque aos responsáveis pela ótima direção musical, preparação vocal, coreografia e estudos de movimento.

O espetáculo se permite interromper a obra antes do final (é uma livre adaptação) para indagar ao público qual a saída e se há saída para a realidade demonstrada. Peter Weiss termina com um protesto de Mockinpott ao próprio Deus dizendo ser Ele o responsável pelos seus infortúnios ("trabalho, pátria, família, polícia, a falta de uma recompensa por todos meus sofrimentos na existência") antes de se afastar patinando em círculos cada vez maiores que o levam para não se sabe onde. Alguma libertação, talvez. A opção do Grupo de 59 é a de puxar o breque. O da música e do enredo e deixar ao espectador um "E agora?" cortante, mas não desalentador. Schapira deu um jeito de aquecer o espaço cênico com vitalidade esperançosa ainda que ressabiada. A humanidade ali retratada avança para o futuro sem palavras de ordem desgastadas, ilusões e bravatas. Rimando, rimando, Mokimpó diz "Aqui, Ó..." para quem julga poder deixá-lo sempre, "no pó". Instante artístico rebelde, criativo e feliz em um dos espetáculos essenciais de 2011.

Crítica: Jefferson Del Rios

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