Um forte coquetel sobre novas concepções de família

Crítica

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

Na entrevista acima, François Ozon fala que O Refúgio nasceu do seu desejo de entender o mistério da maternidade e também da vontade de falar sobre novas concepções de família. Drogas, homossexualidade, o coquetel de O Refúgio é forte, mas o mais interessante será acompanhar a gravidez de Isabelle Carré. A atriz, como a personagem, estava grávida. O filme é sobre essa mulher que quer viver a experiência da gravidez para manter no próprio corpo a semente do homem amado, mas no limite não tem o instinto da maternidade e não quer ser mãe. Uma barriga de aluguel? Quase.

É curioso comparar O Refúgio com outro filme em cartaz, O Estranho em Mim, da alemã Emily Atef, sobre essa mulher que sofre de uma depressão pós-parto e rejeita o bebê, que vira o estranho do título. São filmes que enfrentam tabus raramente abordados pelos autores. Ozon é gay assumido, Emily é mulher. Ambos possuem a sensibilidade de propor novas abordagens de velhos temas.

Ozon é um caso interessante do cinema francês. Começou a filmar cedo - aos 21 anos, o curta Photo de Famille, em 1988 - e, nestes 22 anos, consolidou uma obra considerável, por meio de longas como Gotas d"Água em Pedras Escaldantes (adaptado de uma peça de Rainer Werner Fassbinder), Sob a Areia, Oito Mulheres, À Beira da Piscina, Amor em Cinco Tempos, O Tempo Que Resta, Angel, Ricky. Muitos, senão todos, tratam do sentimento de perda, da morte. São filmes que realizam o luto e um deles, Sob a Areia, é justamente sobre uma mulher cujo marido desaparece numa praia e ela não tem um cadáver para chorar. O Refúgio é sobre outra mulher que, agora, realiza seu luto carregando o bebê do homem que amava (e que morre na abertura de overdose).

Mesmo quando fala de homens, o cinema de Ozon favorece o feminino. É um cineasta da mulher, como certos autores clássicos de Hollywood (George Cukor e Joseph L. Mankiewicz, aos quais admira, por sinal) e, em Amor em Cinco Tempos, invertendo a ordem cronológica de seus flash-backs, ao contar a história de um casal, manifestou ostensivamente uma preocupação com a linguagem que talvez seja mais sutil nos demais filmes que compõem sua obra em progresso.

O Refúgio foi bem de bilheteria na França, mas não foi um estouro. Os críticos o rotularam como um filme de arte e ensaio, essencialmente autoral, e com esse perfil ele encontrou seu público. Ozon é o primeiro a reconhecer que, com altos e baixos - Oito Mulheres é seu maior sucesso; Angel, o relativo fracasso ("Ninguém entendeu porque quis fazer um filme em inglês") -, ele tem a sorte de engatar um filme no outro e. Em 15 anos de carreira no longa, fez 14 filmes.

E são filmes diferentes, uns dos outros. Muda o tom, o gênero, um musical sucede a um drama, um filme fantástico a um melodrama, mas dentro dessa "diversidade", Ozon mantém-se fiel a si mesmo e configura o "caso" que é no cinema de França. Relações, família, amores difíceis. O cinéfilo pode não saber a história, mas antecipa o que vai encontrar nos filmes do autor. No Refúgio, além de Isabelle Carré grávida, ele propõe uma descoberta - o cantor e compositor Louis Ronan Choisy, no papel do cunhado gay. No princípio, ele ia fazer só a trilha. Tomou gosto e já fez o segundo filme, Memory Lane.

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