Um filme para tocar nossos corações

Querido John, como é visto pelo autor do livro em que se baseia, Nicholas Sparks

Luiz Carlos Merten de Los Angeles, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2010 | 00h00

Seu nome é Nicholas Sparks, mas você pode chamá-lo de Sr. Cinema. O autor de Querido John conversa pelo telefone com o repórter do Estado. Ele está em casa, em North Carolina, onde vive com a mulher e os cinco filhos. E acha graça da definição. Diz que não é bem assim. Escreveu 15 livros, dos quais seis foram adaptados para o cinema - e um foi ele próprio quem adaptou, A Última Música, que estreia em junho, com Miley Cyrus, a Hannah Montana. Sparks ama cinema e acredita que tem tido sorte com os diretores que adaptam seus livros. "Lasse (Hallstrom) fez um belo trabalho em Querido John", ele diz sobre o filme que estreia na sexta. O livro já está nas livrarias, lançado pela Editora Novo Conceito.

Veja a trechos de Querido John no site

Apesar do sucesso - milhões de livros vendidos, filmes que vão bem na bilheteria; Querido John foi o primeiro a desbancar Avatar no box office norte-americano -, Sparks jura que não escreve pensando no cinema nem se os executivos vão se interessar por suas histórias. "Sou escritor, não roteirista em potencial. Mas sei que faço um tipo de material que atrai o público e os executivos. Gosto de histórias de amor, mas me atrai a densidade emocional da relação entre as pessoas. Por exemplo, por que Samantha age daquele jeito? Por que faz aquela escolha?"

Samantha é a personagem de Amanda Seyfried em Querido John. O próprio protagonista é interpretado por Channing Tatum e recebe a carta que começa assim. Nicholas Sparks adora a escrita. É autor de Diário de Uma Paixão, de Mensagem de Amor. A carta que John recebe parte seu coração. Livro e filme buscam fazer o espectador compartilhar a emoção do herói. Pode soar melodramático e Sparks diz que o desafio é sempre esse. "A linha que divide drama e melodrama é muito tênue", explica.

Seu modelo acabado de história de amor, válido para Querido John, é Casablanca, o clássico romântico de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. No desfecho, Rick tem de escolher entre ficar com a garota ou deixá-la partir com o marido. Na verdade, sua escolha é de como vai perdê-la, porque ele sabe que, se Ilsa Lund abandonar o marido para ficar com ele, os dois não terão um futuro, de qualquer maneira.

"Casablanca é a mais bela história de amor. Aqueles caras sabiam como contar e emocionar. Sou aplicado. Escrevo todo dia, das 9 da manhã às 3h30 ou 4 horas, com um intervalo para almoço. Sou disciplinado. Escrevo pelo menos 2 mil palavras por dia, mas a questão é o que escrever, onde buscar o material? Na observação, com certeza, mas também em filmes que fazem parte do nosso imaginário, como Casablanca, ou ele não faz parte do seu?" O assunto gira em torno justamente do conceito de adaptação.

Quando o repórter viu o filme, em janeiro, para entrevistar o diretor e o elenco, Querido John terminava de um jeito, mais fiel ao livro. Aquele desfecho foi refeito e o filme talvez não tivesse feito tanto sucesso nos EUA sem o novo final. "Não me queixo. Cinema é uma coisa, literatura é outra. Existem as histórias que você lê e as que vê. O conceito geral, o clima, tudo isso é mais importante."

Guerra. Finais felizes ou infelizes são fáceis, garante Sparks. Difícil é o fim doce-amargo, como o de Casablanca, o de Querido John. Seria fácil odiar Samantha, ou odiar John. Melhor é entendê-los. Simplesmente talvez não possam ficar juntos. Há tantas histórias assim, na vida e no cinema, ou na literatura. "O livro trata da relação de John com o pai e no filme ele é interpretado pelo grande Richard Jenkins. Tem a cena mais emotiva, a do hospital. Lasse acertou no tom", diz o escritor. John é soldado. O tema do Iraque se faz presente. A guerra é algo que o preocupa?

"Com certeza, mas ela não é uma personagem aqui, como é em Um Homem de Sorte (A Lucky Man), que começa a ser filmado em maio", conta o diretor. A guerra é uma experiência muitas vezes romântica, na literatura e no cinema. "É diferente da realidade, em que é sempre uma tragédia", ele conclui. "Mas o tema da guerra conecta mais as pessoas. Além do aspecto metafórico, é algo que está no dia a dia. E transformar assuntos do cotidiano em algo duradouro, que estimule a reflexão, essa é uma das funções da arte."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.