Bruna Barbosa/Divulgação
Bruna Barbosa/Divulgação

Um filme de trabalhadores

Charlotte Rampling, Irène Jacob e Bill Pullman falam de Rio Sex Comedy, feito em cooperativa

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2010 | 00h00

Domingo chuvoso no Rio. No caos do trânsito, provocado pelo excesso de carros dos eleitores, parte da equipe de Rio Sex Comedy demora a chegar à casa do diretor Jonathan Nossiter, no Leblon. A conversa começa com o próprio Nossiter e o ator Fischer Stevens. Chegam Charlotte Rampling, Irène Jacob e Bill Pullman. Todos adoraram a experiência de fazer este filme no Brasil. Para alguns, a relação não é só profissional. Charlotte é madrinha de um dos filhos de Nossiter (com a brasileira Paula). O "gringo", que fez o documentário Mondovino, é o mais brasileiro dos cineastas americanos.

Em certo sentido, Rio Sex Comedy pode ser definido como o filme que Sérgio Bianchi faria, se levasse sua câmera à cidade chamada de "maravilhosa". O embaixador dos EUA perde-se (encontra-se?) numa vida meio clandestina nas favelas cariocas, envolvendo ONGs, cirurgiões plásticos (incluindo o próprio Ivo Pitanguy) e uma pesquisadora que realiza filme antropológico (e fica amante do cinegrafista, que ocorre ser irmão de seu marido). O Brasil é um país cronicamente inviável?

"Que pergunta é essa?", interroga Charlotte Rampling. É preciso explicar que se trata do título (Cronicamente Inviável) de um filme de Sérgio Bianchi, que Jonathan Nossiter admira, é bom acrescentar. Antes da chegada das "ladies", o assunto já era o Brasil. Embora não seja um "nomão" de Hollywood (em de Independence Day fazia o presidente dos EUA), Fischer Stevens sempre foi um ativista político no meio artístico. Liderou campanhas contra George W. Bush, apoiou Barack Obama. Diz que o atual presidente está devolvendo a América a suas raízes, mas não é fácil consertar os estragos dos últimos 28 anos. Stevens situa o desvirtuamento das tradições dos EUA no período Ronald Reagan. A coisa só foi piorando depois, incluindo Bill Clinton, a nice guy, mas presidente ruim.

Todos adoraram a experiência no Rio. "Não foi uma produção tradicional", esclarece o diretor. Rio Sex Comedy foi feito no sistema de cooperativa. "É um filme de trabalhadores, feito por todos", ele acrescenta. Irène Jacob e Charlotte Rampling não lhe poupam elogios. "Ele me falou do projeto na França, quando nos encontramos", diz a primeira. "Era uma coisa estimulante, a ideia de que o próprio roteiro nasceria da contribuição do elenco, de encontro com a realidade social abordada." Trata-se, afinal, de um filme que lança um olhar, o olhar estrangeiro sobre o País. Charlotte dá sua versão - "Em geral, os diretores confinam os atores em caixas. A gente vai lá, faz a cena, mas não participa de verdade. Somos manipulados pelos diretores, às vezes grandes diretores, não me queixo. A loucura de Jonathan foi ter nos proposto uma coautoria. O que ele fez foi me propor uma das experiências mais renovadoras de minha carreira."

Bill Pullman concorda: "O mundo atual é muito corporativo. Tenho irmãos mais velhos que viveram o espírito libertário de 68 e do power flower. Reencontrei aqui esse espírito de resistência. Isso me estimulou a buscar novas formas de expressão. Quero escrever um livro, depois dessa loucura toda." A crítica captou a intenção do filme, mas não aprovou integralmente o resultado. A equipe saboreia o sucesso das apresentações de Rio Sex Comedy em Toronto e, agora, no Brasil. "A plateia de Toronto transformou a exibição num evento. Era todo mundo na sala, em todas as sessões", lembra o diretor. Apesar disso, o filme ainda não está acabado para ele.

"É um work in progress. Aproveitando que não tenho produtor nem distribuidor, vou voltar à edição para cortar uns 15 minutos. Quero fazer de Rio Sex Comedy um filme mais compacto", ele explica. Irène Jacob tem ousadas cenas de sexo, que faz com o marido. "Carregamos no humor até para compensar o constrangimento de revelar nossa intimidade perante a câmera", ela conta. Charlotte faz uma cirurgiã plástica. Ela não sabia nada sobre o assunto. Visitou clínicas, encontrou-se com Pitanguy, mas, no limite, cria a personagem como a viu, ou sentiu. Charlotte também está em outro filme do Festival do Rio, A Vida Durante a Guerra, de Todd Solondz.

Faz uma mulher que paga para ter sexo com o protagonista da história, um coroa que saiu da cadeia, onde amargou pena por pedofilia. "São filmes muito diferentes", observa Charlotte. Ela minimiza quando o repórter destaca sua coragem em se jogar em papéis nem sempre lisonjeiros. A mulher de A Vida Durante a Guerra assume que está velha e que o gigolô improvisado merece pagamento, por seu esforço. Charlotte não liga para isso. Interessa-lhe o filme como um todo, o que o diretor está querendo dizer. Neste domingo, com o cabelo molhado de chuva, os olhos brilhando na convivência dos amigos, ela é uma bela coroa de olhos felinos. Um mito do cinema, por seus papéis em obras cultuadas de Luchino Visconti, Liliana Cavani e Alan Parker. Um mito, mas uma antiestrela que veio fazer cinema cooperativo no Brasil.

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