Um filme de beleza triste, como uma peça de câmera

ÓTIMO

Crítica: Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2010 | 00h00

Já em seu título, este novo filme do finlandês Aki Kaurismaki fala em luz, ou na ausência de luz. Luzes na Escuridão será toda uma história construída ora na penumbra, ora sob uma luz fria, invernal, embora, para não cair no clichê, Kaurismaki evite as paisagens geladas que estariam à disposição em seu país.

Luzes na Escuridão tem por tema a solidão do homem em um ambiente que não apenas lhe é hostil, mas indiferente, o que chega a ser pior. A solidão é um fato, mas também o é o inconformismo diante dela. É próprio do homem incomodar-se com a indiferença alheia, não importa se viva nos trópicos ou em Helsinque.

É lá que mora e trabalha o protagonista Koistinem (Janne Hyytiainem), segurança noturno de uma joalheria. Sua rotina se resume a sair do trabalho e passar por uma casa de lanches montada num trailer. Troca duas ou três palavras com a vendedora, come um sanduíche e vai para casa dormir. No dia seguinte, a mesma coisa. Até que entra em sua vida uma mulher de ar enigmático, Mirja (Maria Jarvenhelmi), também lacônica e que acaba se envolvendo num romance quase sem palavras com Koistinem.

Poderíamos aqui ter o estereótipo da loura fatal, mas Kaurismaki não cede diante desse clichê. Se Mirja é manipulara, o será apenas com o consentimento do vigia noturno. Ele é um caso meio patológico de passividade - e este é o subtema de Luzes na Escuridão. Koistinem é inerte apenas porque sua natureza o levou a ser assim, ou porque está enredado por um afeto que de outra maneira não teria?

De qualquer forma, através de sua anti-história de amor, Kaurismaki passa por diversos aspectos da sociedade finlandesa, da fragilidade dos laços afetivos à presença da máfia russa, em meros 78 minutos de filme. Essa é outra de suas características: o poder de síntese. A capacidade de colocar uma série de questões, e de maneira profunda, com poucos diálogos, poucas imagens, pouco tempo.

E, se tudo é concentrado, mesmo o desalento, convém dizer que, em meio a tanto desamparo, uma pequena luz aponta no final. Talvez não o suficiente para clarear toda a solidão anterior, mas é como se Kaurismaki nos dissesse: não vamos nos queixar; isso é tudo o que temos, apeguemo-nos à pouca luz que nos é concedida. Um filme de beleza triste, como uma peça de câmera. Uma pequena joia.

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