Um filme bem forte, assim como é o artista que está retratando

Ninguém esperaria de Gustavo Rosa de Moura que fizesse um documentário tradicional - ou didático - sobre Cildo Meireles. Para início de conversa, o próprio retratado não mereceria isso. Nome fundamental da arte conceitual no País, pioneiro das instalações, Cildo vive um momento glorioso. Em 2008, quando o documentário já estava sendo feito, ele recebeu o Prêmio Velásquez, outorgado pelo Ministério da Cultura da Espanha, e o Ordway Prize, do New Museum de Nova York. No asno passado, foi homenageado com uma retrospectiva na Tate Modern, de Londres, considerada o maior templo da arte contemporânea do mundo.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Cildo Meireles é uma superstar das artes visuais. Na intimidade, ou como retratado no filme, o artista de gênio revela tudo, menos máscara. E quando conta episódios de sua vida pessoal, aqueles mais diretamente ligados à sua arte, que a deflagram e explicam, consegue ser, ao mesmo tempo, divertido e emocionante. Lúcido, sempre.

Gustavo Moura é jovem. Era arquiteto/cineasta. Cildo, o filme, é seu vestibular para ser, agora e sempre, cineasta. Incorporando imagens de um velho documentário de Wilson Coutinho sobre o artista, ilumina uma das trajetórias mais ricas da arte brasileira contemporânea. Ele cresceu sob o impacto da arte conceitual durante a ditadura. Viu nela um instrumento de democratização - e nunca teve problemas em permitir que a política contaminasse sua produção artística.

Como ele não se cansa de dizer, sua arte não abre espaço algum para elucubrações críticas que não estejam diretamente ligadas ao que quer discutir e, por isso mesmo, ele cria dificuldades para os críticos que querem "viajar" em sua obra. É um tema que percorre o filme, que também expressa a indissociável importância do som em tudo o que Cildo faz. Durante a entrevista - leia acima -, o diretor conta que o velho documentário de Wilson Coutinho a cujas imagens e sons recorre, poderá estar entre os extras do DVD.

Moura prestaria um ótimo serviço se também conseguisse incluir outro documentário que o dele, de certa forma, completa. Realizado pelo inglês Gerald Fox e com 50 minutos de duração, foi produzido pela Tate Media e exibido na abertura da retrospectiva em Londres. Fox seguiu Cildo com sua câmera pela capital inglesa. Moura, que o acompanhou em diferentes exposições, pagando do próprio bolso as viagens - Inhotim, Museu Vale de Vila Velha -, teve como grande desafio criar um tempo, uma velocidade, que fossem adequados para exibir a obra e o artista.

Num certo sentido - o crítico de arte do Estado Antônio Gonçalves Filho já disse -, ele ralenta o tempo para que Cildo Meireles volte ao passado, contando fatos marcantes de sua vida e como influenciaram a obra. A peça chave é a instalação Missão/Missões (Como Construir Catedrais), mas também vale se debruçar sobre as Inserções em Circuito Ideológico - Projeto Coca-Cola, com suas mensagens contra o imperialismo colocadas em garrafas do refrigerante que eram devolvidas aos consumidores, num duplo ato de subversão, contra a ditadura e o próprio mercado. Cildo, o filme, é forte como o artista.

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