Um festival para desalojar as certezas

Na terceira edição, evento se mantém como espaço de diálogo, formação e crítica

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

O Festival Contemporâneo de Dança, dirigido por Adriana Grechi e Amaury Cacciacarro Filho, que acaba de realizar a sua terceira edição na Galeria Olido, se mantém fiel ao formato e ao tamanho a que se propôs desde a sua criação, em 2008. Deseja comunicar-se com um público informado, promovendo seu contato com artistas vinculados, de diferentes formas, à produção de pensamento crítico em dança.

Quem abriu o festival em 2010 foi we think, we like that. a movement piece? (nós pensamos, nós gostamos disso. uma peça com movimento?), fruto da colaboração entre Cristian Duarte (SP) e Paz Rojo (Madri). Trata-se de uma obra inquietante, que faz parte do que seus criadores denominam de um "campo de trabalho", ao qual deram o título de a piece... together? (uma obra... juntos?), cujo desenvolvimento pode ser acompanhado no www.apiecetogether.blogspot.com.

A inquietação surge já no início. O público se acomoda na plateia, tudo indica que o espetáculo vai começar, e ele, de fato, começa. Entra alguém, que não parece ser um profissional da dança, liga o som, agindo com os códigos habituais de uma obra de dança contemporânea. Instantes depois, a música, que tocava para todos, vai para dentro do seu colete, e passa a ser "escutada" somente pelo seu corpo.

Em seguida, tudo começa a ser desmontado da sua habitual funcionalidade. Os refletores vão sendo embalados em plástico bolha, entram pessoas carregando um rolo de papel kraft, começam a embrulhar as paredes, o chão. Aos poucos, instaura-se o mundo de Christo e Jean-Claude (a dupla que cobre objetos de larga escala como montanhas, pontes, ilhas, etc.), e dele não escapam nem as poltronas onde a plateia se senta. Elas também são embrulhadas, o que implica abandoná-las.

De pé, aos poucos, a maior parte da plateia vai aderindo e passa a colaborar com a atividade de embrulhar todo o teatro. O irresistível estourar de plástico bolha torna-se a trilha sonora desse afazer. Para uma criação que se perguntava "O que pode ser um, dois ou mais corpos sustentando a questão do nós?", a resposta apareceu ali mesmo, em tempo real, na colaboração que foi surgindo. E para a outra pergunta que a atividade embute - e onde está a dança? - a resposta parece ser: a dança pode nos pôr em contato com uma das questões mais importantes do século 21: onde mesmo foi parar isso que se chama de nós?

Começando com uma inteligente provocação, o Festival Contemporâneo de Dança se encerrou com dois espetáculos igualmente inquietantes: The Croquis Reloaded, de Cuqui Jerez e Cristina Blanco (Madri) e com ponto.Crise, uma palestra-ensaio do Projeto DR (SP). Entre esses dois momentos, apresentou Dance (Praticable), de Frédéric Gies (Berlim); dois trabalhos de Gustavo Ciríaco (RJ): Aqui Enquanto Caminhamos e Still - Sob o Estado das Coisas; e ainda o Projeto Teorema, que reúne artistas e teóricos em apresentações abertas ao público, com curadoria de Fabiana Dultra Brito.

Vivências. Cuqui Jerez e Cristina Blanco vão entretecendo situações cotidianas, e daí nasce a sua dramaturgia. A peça é apresentada ora por uma, ora por outra das duas criadoras, que se revezam nos dois papéis: uma fica assistindo na plateia enquanto a outra dança no palco. Em um recurso comum na literatura, fazem seus personagens intercambiarem as suas vivências, estilhaçando com a noção do real como "aquilo que acontece".

O Projeto DR (Discutindo a Relação), formado por Sheila Arêas, Tarina Quelho, Laura Bruno e Mara Borba, avança na sua proposta de buscar localizar somente no corpo o que estava distribuído na teatralidade, nas falas, e na inserção da plateia como parte do seu trabalho - recursos presentes em suas obras anteriores.

Na palestra-ensaio, que faz parte de uma série, parecem haver encontrado o que perseguiam, não somente nas escolhas dos objetos (mesa, banco, cordas, biribas de festa junina (aquilo que se atira ao chão e faz barulho de tiro), mas sobretudo na reproposição que elaboram com cada um - faltando ainda inserir o microfone nos deslocamentos que já estão presentes na maior parte da obra.

Desapego. Incerteza e crise estão no foco do Projeto DR. A possibilidade de construir um "nós" mobiliza Cristian Duarte e Paz Rojo. O desapego a uma narrativa de realidade baseada em acontecimentos vividos instiga Cuqui Jerez e Cristina Blanco. É o Festival Contemporâneo de Dança levando adiante a perspectiva de se constituir como um espaço de diálogo, experimentação e formação, não somente porque apresenta oficinas e encontros com os artistas, mas porque a sua programação coerente e consistente espelha esse seu importante compromisso.

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