Um fazedor de hits implacável

Um papo com o líder da KC and the Sunshine Band, fábrica de sucessos, que toca hoje em São Paulo

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2011 | 03h07

Quando você ouvir Madonna, Justin, Beyoncé, Kesha, Rihanna, pode ter certeza: alguma coisa ali no meio do som deles deve pagar tributo a KC e sua Sunshine Band. Em 1975, de sua base de lançamentos na Flórida, KC consumou um disco que seria pedra fundamental de todo um conceito de dance music: KC and Sunshine Band. Puseram cinco músicas entre as mais tocadas de toda a América. Naquele ano, com Get Down Tonight, KC desafiou o mundo todo com duas frases-chave: "Do a little dance" e "Make a little love...".

Então alternando um emprego numa loja de discos e seu coté de aspirante ao star system, Harry Wayne Casey, o KC, criou o que se convencionou chamar depois de "disco party", um coquetel de funk, soul, pop e eletrônica que ganhou as paradas do mundo todo. Juntou um time de aventureiros, no qual preponderavam o baixista e arranjador Richard Finch e o guitarrista Jerome Smith (morto num acidente no ano 2000). A guitarra de Smith, alterada em estúdio para soar como um sintetizador, pegou o mundo todo com ganchos como Rock Your Baby, Get Down Tonight, That's the Way (I Like It), (Shake, Shake, Shake) Shake Your Booty e I'm Your Boogie Man.

Vindo de uma cidadezinha chamada Hialeah, na Florida, KC acaba de completar 60 anos. Em 1973, ele e Richard Finch montaram aquela que inicialmente chamaram de KC and the Sunshine Junkanoo Band. Seu som, nos dias de hoje, atrai aquilo que pode ser definido como "guilty pleasures", um tipo de prazer meio culpado, porque nos faz resvalar no universo kitsch e cafona de uma era - e por conta de sua assimilação pelo comércio popular de cultura, como Donna Summer.

Claro que KC teve seus percalços. Um acidente de carro, em 1982, o tirou de cena durante um tempo. Ficou parcialmente paralisado e a dor acabou fazendo com que se viciasse em analgésicos. Passou os anos 1980 em uma espécie de retiro compulsório - parte disso por causa de um período de 10 anos de vício brabo em cocaína (diz que foi decorrência do vício em analgésicos), após o qual teve de ir para uma clínica de reabilitação. Em 1991, agitou um retorno, que foi bem-recebido. Foi nessa época que o grupo Double You regravou Please Don't Go, hit de KC, que tornou a bandinha um sucesso planetária, vendendo milhões de discos. O Los Angeles Times disse que, ao contrário de astros da mesma época e do mesmo gênero, KC ficou para o futuro por causa de sua consistência.

Em 1997, mais um retorno. "Essa onda retrô dos anos 1970 fez as coisas acontecerem de novo e me dei conta de que tinha tomado a decisão certa", afirmou KC. Ele passou a compor de novo com Richard Finch e saiu em turnê com alguns membros originais da Sunshine Band dos anos 1970, como Fermin Goytisolo na percussão e Beverly Foster nos backing vocals. Passou seis anos excursionando. Também gravou um novo álbum.

KC estima que suas composições tenham sido usadas em mais de 50 filmes, de Os Embalos de Sábado à Noite a Os Olhos de Laura Mars, nos anos 1970, chegando a Forrest Gump e O Povo Contra Larry Flynt, nos anos 1990. Não é possível fazer o relato daquela época e recompor um retrato social de um período sem associar isso às músicas de KC and the Sunshine Band.

Ele também conta que companhias como General Motors, Burger King, Pillsbury e Budweiser já usaram suas canções em comerciais. "Fiz a música para repartir com o mundo", ele declara. Mas sua peregrinação pelos palcos, desde então, não tem mais o brilho do passado, obviamente. KC ainda está em busca da faísca que reacenda a velha chama. Mas sua importância histórica deve ser realçada a vida toda. Steven Ditlea escreveu no New York Times, na época, que "KC tem a presença de palco e a habilidade musical para construir uma ponte que acabe com a separação cultural entre os performers brancos e os ouvintes negros, assim como entre a música negra e as plateias brancas".

Já tem um tempo que KC ganhou uma estrela na calçada da fama de Hollywood. Uma estrela é bom, mas melhor ainda é o festival de hits que eles levam na bagagem mundo afora, com uma banda de 15 integrantes, segundo informou o cantor. Para quem foi testemunha das disco parties dos anos 1970, hoje é um dia especial.

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