Um fascinante exorcista das imagens

Sempre é tentador fazer paralelos entre obra e vida de um artista. Em especial, quando se trata de alguém como Roman Polanski, cuja existência parece desconhecer águas calmas. Assim, basta assistir a seus dois longas de início de carreira, Faca n"Água (1962) e Repulsa ao Sexo (1965), para se convencer de que ali estava um artista disposto a explorar o seu meio de expressão da maneira a mais radical possível. Há quem os considere, não sem alguma razão, os melhores de sua carreira.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2011 | 00h00

Viria muito mais no futuro. Bebê de Rosemary (1968) passa por um dos mais completos - e assustadores - filmes de todos os tempos. E, como não se envolver com aquela história da garota (Mia Farrow) ofertada pelo próprio marido (John Cassavetes) para gerar o filho do Mal? Tocado ele próprio pelo mal, com o assassinato de sua mulher Sharon Tate, grávida, por um bando de malucos, Polanski representa (ou tentou fazê-lo) a tragédia em sanguinolenta leitura de Macbeth (1971), sinistra peça de Shakespeare.

Em 1974, Polanski ressuscita o noir em seu brilhante Chinatown, drama dos mais envolventes, com Faye Dunaway, Jack Nicholson, e o próprio diretor em pequeno papel. O terror psicológico, como ator e cineasta, viria a reencontrá-lo em O Inquilino (1976), contracenando com Isabelle Adjani. Estudo sobre o medo, não sobre o medo ornamental, divertido, mas sobre o real pânico psicológico.

Polanski também dirigiu alguns filmes menos bem-sucedidos, como Lua de Fel (1993), baseado na obra de Pascal Bruckner, ou O Último Portal (1999), um tanto obscuro e pouco convincente. Mas reencontrou-se, com brilho, em O Pianista, memória dolorida dos campos de concentração e do gueto de Varsóvia, com um Adrien Brody notável no papel-título. Deve vir mais por aí, com o inédito Deus da Carnificina, que será exibido no Festival de Veneza. Pode-se esperar o melhor desse fascinante exorcista de imagens.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.