José Patricio/Estadão
José Patricio/Estadão

Um farol

Há um ano, o jornalista americano Ta-Nehisi Coates lançou Entre o Mundo e Eu, que logo obteve o respeito da crítica e alcançou o primeiro lugar na lista de mais vendidos do The New York Times. Tempos depois, o livro continua atual, sobretudo após a onda recente de protestos nos Estados Unidos e a intensificação do debate sobre conflitos raciais.

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

18 Julho 2016 | 02h00

É um livro curtinho e impressionante, que dá vontade de deglutir com o Kindle e tudo. Coates escreve uma carta ao filho adolescente falando como os corpos dos negros são descartáveis, sobretudo por obra dos departamentos policiais. “Não interessa se a destruição resulta de uma reação excessiva infeliz. Não interessa se teve origem num mal-entendido. Não interessa se advém de uma política estúpida”, ele escreve. “Venda cigarros sem a autorização devida, e o seu corpo pode ser destruído. Leve a mal que alguém tente cercá-lo, e o seu corpo pode ser destruído. Vire em direção a uma escadaria escura, e o seu corpo pode ser destruído. Os destruidores raramente serão responsabilizados. Em muitos casos, receberão pensões. E a destruição é meramente a forma superlativa de um domínio cujas prerrogativas incluem revistas, detenções, espancamentos e humilhações.”

O texto é pesado, bem escrito e lírico, mas sem sentimentalismo. O autor fala de desigualdade social e da sensação de crescer nesse ambiente. “As ruas transformam cada dia comum em uma série de questões capciosas, e cada resposta incorreta traz consigo o risco de um espancamento, um tiro ou uma gravidez”, diz.

Coates nasceu em Baltimore, uma das cidades americanas com os maiores índices de desigualdade social, racial e econômica. Ele conta que, por lá, justificam-se as prisões e os guetos, bem como a destruição do corpo dos negros, como sendo um inconveniente a se pagar pela preservação da ordem. O escritor fala do assassinato de um amigo de faculdade, Prince Carmen Jones Jr., cujo jipe foi confundido por oficiais à paisana com o de um homem procurado por roubar uma arma da polícia. O oficial sacou o revólver e diz que se identificou, mas sem mostrar o distintivo, o que fez Jones correr de volta para o carro, pensando se tratar de um assalto. Quando ele deu partida, o policial atirou 16 vezes.

Para quem não vive essa realidade, Coates passa uma impressão vívida de sufocamento, um desejo irresistível de se libertar e fugir em alta velocidade. Ele conta como, aos poucos, passou a enxergar a discordância, a discussão e o caos, talvez até mesmo o medo, como uma espécie de poder. “O desconforto corrosivo e a vertigem intelectual não era um alarme. Era um farol”, escreve.

Segundo um crítico da revista Slate, o livro é “uma carta de amor escrita num momento de emergência moral que Coates expõe com a precisão de uma autópsia e a força de um exorcismo”.

Mais conteúdo sobre:
Crônica

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.