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Um exército no Céu

Nas casas, só não tinha santo no quarto do casal, para ele não ver o que não deve ser visto

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2019 | 02h00

Deus está em toda parte – mas pode ser que esteja um pouco mais em Minas. Certamente nas igrejas de Ouro Preto, Diamantina e Mariana, onde até os incréus experimentam, como no verso de Paulo Mendes Campos, uma vontade pesada de ajoelhar. Mas esses tesouros coloniais são apenas as moradas mais óbvias do Senhor na terra do Aleijadinho. Em Minas, Ele se abriga em cada canto. Até mesmo na igrejinha da Pampulha, aquele “hangar de Deus”, diria Paul Claudel, que um arcebispo das trevas (nestes tempos bolsonarianos, seria atualíssimo) se recusou a benzer por longos 14 anos, pelo fato de ter sido construída por um comunista, Niemeyer, e decorada por outro, Portinari. 

O Senhor está, talvez de modo especial, no Vale do Jequitinhonha, onde Minas começa a virar Bahia, e que revisitei faz algum tempo.

É uma região pobre, tão pobre que se pode indagar: será que Deus se esqueceu da gente desse ressequido vale de lágrimas? A recíproca está longe de ser verdadeira: a fé, aqui, é algo palpável. Não há casa que não se proteja com estampas e imagens de santos. Mais acima, na Bahia, eles vão conviver ecumenicamente com as entidades do candomblé, mas no sertão mineiro estamos ainda na jurisdição exclusiva, ou quase, do cristianismo.

Ou mesmo daquilo que talvez já nem coubesse nesse rótulo. Como São Jorge: mesmo tendo sido apeado do calendário litúrgico pelo papa Paulo VI – com o argumento de que sua vida conteria mais lenda do que realidade –, ele continua a lancear dragões em redutos de uma fé atemporal nos quais parece que Deus ainda fala em latim. Indiferente às modernidades vaticanas, o povo segue invocando a proteção equestre do santo que Roma condenou ao limbo antes de abolir o próprio limbo. Lá está Jorge no coração dos fiéis e nas paredes das casas.

Na sala de visitas se acolhe Nossa Senhora Visitadora, que vai de peregrinação de casa em casa. A vizinhança vem atrás, mas só a santa saberia dizer quem está ali movido pela fé ou pelo café com quitandas, designação mineira para bolos, doces e biscoitos em geral.

Houve um tempo em que santo ou santa só não entrava no quarto do casal, para não ver o que não deve ser visto – nem mesmo Santa Luzia, que teve os olhos arrancados no martírio. Quando se muda ou se reforma a casa, convém providenciar a entronização dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ou da Sagrada Família au grand complet. Para não falar da Santa Ceia, os convivas num lado só da mesa, de frente para os pincéis de Da Vinci.

Esses são os clássicos, mas há santo para tudo quanto é uso, alguns deles com nicho exclusivo. 

São Benedito costuma estar onde esteve em vida: junto ao fogão, patrono que é dos cozinheiros. 

Nos fundos da casa, Santa Clara, quem sabe por influência do nome, é protetora das lavadeiras, que para obter dos Céus um céu sem nuvens põem a derreter na chuva um pedaço de sabão. 

São Dimas monta guarda atrás da porta, barrando a entrada dos ladrões. Já Santo Onofre vive na rua, é santo itinerante, vai aonde for a bolsa de sua dona ou dono, para atrair dinheiro. 

Também Santa Edwiges é influente na área financeira, e tem visto seu prestígio crescer nestes tempos de alastrada inadimplência, não fosse ela a padroeira dos endividados. 

Santo Antônio é casamenteiro, embora nunca tenha se casado, talvez por conhecer tão bem o assunto. 

São Gonçalo do Amarante também providencia casamento, mas só para moça velha. É largamente invocado por prostitutas, que recorrem ainda a Santa Madalena e a Santa Maria Egipcíaca. 

Quanto a São Bento, sua especialidade é escorraçar cobras e demais bichos peçonhentos: “São Bento na água benta/ Jesus Cristo no altar/ Me limpa este caminho/ que eu tenho que passar”. 

Santa Apolônia, de quem os ímpios arrancaram os dentes, abençoa consultórios odontológicos, tanto quanto Santo Ivo os escritórios de advogados. 

São Brás protege a garganta dos que a usam para pedir a sua ajuda. São Libório cuida dos rins; São Pascoal Bailão, do aparelho digestivo; São Roque, dos cães; São Francisco, dos bichos em geral – é uma lista que não tem fim. Atrás de cada santo, cada santa, fiéis em profusão & procissão. 

Quem entra nessas casas, quem vê essas paredes recobertas de fé sai desconfiado de que Deus talvez esteja, sim, um pouco mais presente nas profundas de Minas que em qualquer outro ponto de seu reino.

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