Um exercício de violência AUTOIMPOSTO

Foi com total incredulidade que o mundo recebeu a notícia de que a austríaca Elfriede Jelinek - mais conhecida pelo seu teatro de vanguarda do que pelos romances - havia sido contemplada com o Nobel de Literatura em 2004. A recepção desse prêmio foi tão morna que sequer ajudou a agilizar a tradução de seus livros. A espera acabou. Após sete longos anos, o selo Tordesilhas edita finalmente A Pianista (Die Klavierspielerin). Esse romance, que causou furor na Áustria no calor de sua publicação, em 1983, e assaltou Cannes em 2001 com uma belíssima adaptação do austríaco Michael Haneke, é uma das mais intensas pesquisas sobre a neurose e a sexualidade já escritas.

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2011 | 00h00

A literatura austríaca contemporânea, liderada por Peter Handke e Thomas Bernhard, é marcada pela égide ansiosa da contestação. Jelinek segue o mesmo esteio - contudo, seu foco está na opressão da mulher. Após lançar Die Augesperrten, romance em que quatro jovens, marcados pela xenofobia, decidem sair pelas noites espancando pessoas, Jelinek voltaria ao tema da violência erguida contra as mulheres numa Áustria particularmente degradante para elas, entre os anos de 1950 e 1970. Sua literatura, contudo, vai muito além dessa marca essencial. É preciso esclarecer, de qualquer modo, que esse desejo de denúncia explica e justifica muito da energia da obra e da figura política de Jelinek.

Para além do tema, A Pianista se sobressai por ser por sua fluência. Erika, a protagonista, é uma personagem memorável: masoquista, reprimida, ela se autoflagela. A sociedade está tão internalizada que Erika é um ser em constante estado de paranoia: não precisa de ninguém que exerça uma força punitiva sobre si. Sua rotina de professora de piano é interrompida quando um aluno tenta estuprá-la no banheiro do conservatório. Tornam-se amantes, só que o jogo erótico de Erika é destrutivo. A cada encontro, exige do parceiro mais e mais punições, mergulhando num turbilhão destrutivo que arrasta o leitor para um mundo perverso e sinistro.

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