Um exemplo americano

Longe de casa, em mostra italiana, obras de Edward Hopper são apreciadas, mas público não pode captar a essência de suas características locais

Michael Kimmelman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Outro dia, eu me misturei com a multidão que ia para uma exposição de Edward Hopper (1882- 1967) na Fondazione Roma. Organizada em colaboração com o Whitney Museum of American Art de Nova York (todas as obras vieram dali), a mostra tem feito sucesso por aqui.

Os visitantes tiram fotos ao lado dos manequins de chapéu de feltro debruçados sobre o balcão. Mas há uma jogada ainda melhor: um quarto com lápis e pilhas de papel branco, onde os rabiscadores podem copiar desenhos de Hopper.

Reproduções são projetadas sobre as pilhas, de modo que as linhas podem ser facilmente copiadas, e as pessoas carregam seus desenhos pela mostra como se fossem diplomas. O que me fez pensar: até que ponto a arte é global?

Inquiri italianos e também nova-iorquinos na exposição, e não era que os italianos não entendiam Hopper, ou não gostavam dele. Ele é mundialmente famoso agora, amado, e os italianos facilmente captaram as associações com o film noir e Antonioni. Mas os nova-iorquinos, naturalmente, falaram de maneira muito diferente sobre ele.

Viscerais. O trabalho de Hopper, como toda boa arte, continua local em algum nível essencial, e isso sem dúvida é tão verdadeiro para pinturas daqueles velhos mestres italianos, franceses e alemães que enchem museus de Tóquio a Tulsa e resumem o que viemos a considerar como arte ocidental universal. Italianos da pequena aldeia de Montefalco, na Úmbria, dirão que veem nas obras da Renascença de Benozzo Gozzoli, seu herói local, uma paisagem e luz que não causa o mesmo impacto em pessoas que não cresceram ali. Essas reações viscerais são adquiridas por experiência direta.

A arte deve supostamente nos proporcionar vivências únicas. Nós a fazemos e consumimos para compartilhar com outros - quanto mais pessoas melhor -, mas também para afirmar nossa individualidade, nossos laços com coisas, lugares, valores e pessoas específicos. A universalidade é útil para o mercado de arte, mas um conceito ainda mal estudado e superestimado.

Por mais que a cultura tenha se globalizado, a arte conserva significados específicos de certo tempo e lugar. A boa arte, ao menos (o que explica por que tanta arte contemporânea não tão boa, voltada para o mercado global, parece genérica e igual em toda parte). Esses significados são, no caso, firmemente estabelecidos. Edward Hopper é um exemplar norte-americano.

Embora tenha visitado Paris quando jovem, ele sempre negou a influência francesa duradoura. Mas claramente captou muitas ideias de Manet, Degas e Daumier, mestres europeus da alienação moderna, depois fez muito mais que meramente substituir a Williamsburg Bridge e o Sheridan Theatre pela Pont Neuf e Longchamp. Percebeu como todas essas pontes e construções que chegavam ao céu e todos aqueles espaços abertos e celeiros rurais em campos recém-brotados eram clichês de uma América cuja população contava inúmeras pessoas levando vidas interiores, muitas vezes solitárias.

Hopper transmitiu o viés psicológico em lugares silenciosos sobre os quais lançou uma luz dura e melancólica. Mas essa luz também podia evocar memórias: os trilhos elevados e blocos de apartamento anônimos, para nova-iorquinos que os conhecem intimamente, podem invocar não só o espraiamento industrial ou o urbanismo triste, mas também uma beleza e dignidade singular amplificada pela, e lastreada na, experiência real, vivida.

Falamos do mundo da arte hoje em dia como se qualquer um em qualquer parte que aprecie arte pertencesse à mesmo tribo global, unida por viagens a jato, mercados integrados e a internet. Mas há muitos mundos da arte, incontáveis, que não conversam entre si, não conhecem ou não se importam com o outro, e que não são menos potentes porque não são, estritamente falando, universais.

Em Berlim, Heinrich Zille é um artista amado e ruas, bares e restaurantes levam seu nome em sua homenagem. Há um museu Zille. Livros, peças e filmes foram produzidos sobre ele. Mais uma peça estreou há pouco tempo perto da minha casa em Berlim. Mas, fora de Berlim, mesmo no restante da Alemanha, ele é pouco conhecido. Ele é o Hopper de Berlim, no sentido de que captou, de maneira áspera parecida, a vida interior da cidade um século atrás.

Eloquência. Toda boa arte provoca projeção, seja de John Singer Sargent, Zille, Henry Moore ou Hopper, cujos desenhos lacônicos e impiedosos podem ter, vistos por um nova-iorquino de passagem por Roma, uma espécie de eloquência proustiana. Eu examinei os que ele fez do verão na cidade e o sol se espalhando por Lower Manhattan antes de empreender minha reconstituição de dois deles até uma padaria siciliana a alguns quarteirões da Piazza Colonna.

Foi inconsciente ir até lá, mas percebi que seus canudos recheados me lembravam os que eu buscava, quando menino, num café da MacDougal Street, onde o dono costumava embalá-los em caixinhas amarradas com barbante vermelho. Eu levava as guloseimas para a minha família, passando por um pátio de concreto e depois cruzava a Sixth Avenue para chegar ao nosso apartamento e, na minha memória, também havia o céu eternamente sombrio de Hopper. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

HERANÇAS

Visuais

O quadro Aves da Noite já inspirou desde personagens de desenho animado a ícones famosos da cultura pop como James Dean e Marilyn Monroe, cujos retratos são frequentemente encontrados em lojas de quadros e de presentes. A mulher de Hopper, Josephine, aliás, é modelo para diversas figuras femininas.

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O uso dramático de luzes e escuridão também fez de seus quadros favoritos entre cineastas. Acredita-se, por exemplo, que a tela Casa ao Lado da Ferrovia influenciou levemente a sinistra casa do filme Psicose, de Alfred Hitchcock.

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A mesma pintura também é citada como sendo uma influência na casa de Terrence Malick no filme Cinzas do Paraíso.

Música

Em 2004, o guitarrista britânico John Squire lançou um álbum conceitual baseado no quadro Marshall''s House. Cada música do álbum foi inspirada por uma pintura do artista americano.

Animação

A influência de Hopper alcançou até mesmo as animações japonesas na série Texhnolyze, sendo usado como base do mundo superficial da série.

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