Um exame de ''mínima moralia''

Trabalho do pensador alemão sobre sua experiência como intelectual exilado, à época ainda não traduzido no País, foi destacado pelo caderno

Ruggero Jacobbi, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

31.5.1958

Theodor Wiesengrund Adorno é, para muita gente, um nome, uma citação: Thomas Mann apresenta-o como o "verdadeiro conselheiro secreto" com que ele contou durante a redação de seu romance Doktor Faustus. Na verdade, Adorno foi uma das figuras principais da emigração antinazista. Nascido em 1903, educado num meio cosmopolita, aberto ás influencias das mais vivas correntes da cultura européia, seu interesse tipico pelos problemas esteticos (especialmente aplicados á musica) não o impediu de assimilar amplamente aquela cultura sociologica e política que foi caracteristica da mocidade universitaria alemã no primeiro após-guerra. Livre-docente no ateneu de Frankfurt de 1931 até o momento das perseguições raciais, que o afastaram da catedra, Adorno é autor de um ensaio sobre Kierkegaard Konstrution des Aestetischen, além de colaborador do "Zeitschrift für Sozial forschung". Sua reflexão, portanto, formou-se em contacto direto com os movimentos mais avançados dos últimos anos da Republica de Weimar. (...) Exilado nos Estados Unidos, durante os anos da guerra mundial, compôs, em colaboração com Horkheimer, sua obra de maior folego, a Dialectik der Aufklärung, além de uma serie de ensaios sobre a musica moderna, mais tarde intitulada Philosophie der neven Musik. Entre 1944 e 1947, Adorno colaborou nas pesquisas realizadas pelo American Jewish Commitees sobre as origens do odio racial e do espirito autoritario. Enquanto isso, vinha compondo os Minima Moralia (...), que resumem sua experiencia de intelectual exilado, culminando numa analise critica da sociedade capitalista, observada de dois pontos de observação absolutamente exemplares: a Alemanha de antes do nazismo, e os Estados Unidos da epoca rooseveltiana.

Não se pense, porém, que os Minima Moralia tenham nascido sob o signo de uma polemica direta, ou que se trate de obra baseada em alguma facil mitologia, como seria a contraposição entre duas civilizações, ou, pior ainda, a tentativa de estabelecer um caminho abstrato de solução da crise cultural e social contemporânea. Adorno, convencido de que a estrutura economica objetiva é o fator determinante do comportamento moral, e sabedor de que (num mundo governado pela rígida lei da concentração economica e das poderosas estruturas monopolisticas), a autonomia do comportamento particular se reduz a uma lenda poetica, afirma que a unica direção possível para o "moralista" é a da analise dialetica dos fenomenos elementares da vida social, isto é, das atitudes, crenças e costumes "standard" que constituem atualmente a "way of life" da coletividade capitalística.

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