Paulo Vitor/AE
Paulo Vitor/AE

Um estranho no ninho na lista dos mais vendidos

Com A Batalha do Apocalipse, o carioca Eduardo Spohr ocupa vaga entre os best-sellers, fato raro entre brasileiros

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Um estranho no ninho vem frequentando a lista dos livros mais vendidos na categoria ficção: há oito semanas, segundo a aferição publicada pelo Sabático, o carioca Eduardo Spohr figura na 7.ª posição, com seu romance A Batalha do Apocalipse (Verus, 586 páginas, R$ 39,90). Um feito especial, uma vez que essa lista é território praticamente exclusivo de estrangeiros, especialmente Dan Brown - a exceção é Paulo Coelho. "Na verdade, devo esse privilégio à ação dos meus leitores, que criaram uma divulgação eficiente nas redes sociais", conta Spohr, que vai autografar o livro hoje à noite, na Livraria Saraiva do shopping Ibirapuera.

A euforia, de fato, existe. Tão logo a primeira versão da obra tornou-se conhecida, em 2007, criou-se uma rede de leitores, formada especialmente pela comunidade dos nerds - o termo é usado, às vezes pejorativamente, para designar aquelas pessoas que criam um culto a um determinado assunto. "Eles são mais que isso, pois também se interessam em aprender", defende Spohr, apontando a chave da questão. "Nerd é um povo que busca conhecimentos em suas leituras e isso eu pretendi oferecer na minha trama, que é ambientada em diversas épocas, como Roma Antiga, Idade Média, Babilônia."

A Batalha do Apocalipse é uma saga que narra o confronto entre o céu e o inferno no Dia do Juízo Final. Ablon, o personagem central, representa a própria dualidade do ser humano - trata-se de um anjo renegado que vive o dilema de não poder se juntar às tropas do Bem, mas também não quer ceder às tentações do Mal. "Como sempre me interessei por metáforas filosóficas em filmes como Matrix e Guerra nas Estrelas, utilizei o mesmo recurso na história", conta o autor. "Mas isso não pode ser mais importante que os personagens. Utilizando um linguajar dos nerds, isso é um "skin", ou seja, uma pele que você muda de acordo com o ambiente. A pele é a pesquisa enquanto o coração são os personagens, a trama."

Spohr, de 34 anos, jornalista de formação com especialização em mídias digitais, revela-se um grande devorador desse segmento da cultura pop. Ele gosta, por exemplo, do trabalho do mitólogo americano Joseph Campbell (1904-1987), cujo livro A Jornada do Herói inspirou diversas personalidades do cinema - Walt Disney, por exemplo, usou tal obra como parâmetro na criação dos heróis do estúdio; George Lucas confessou o mesmo quando realizou Guerra nas Estrelas e o mesmo aconteceu aos irmãos Wachowskis, cineastas que beberam na mesma fonte para dar vida aos personagens de Matrix.

Mitos. Campbell foi um estudioso dos mitos ancestrais, ou seja, aquele homem que abandona a vida mundana por uma região sobrenatural, enfrentando diversos perigos, sofrendo inúmeras tentações até retornar à casa, agora consagrado pelo triunfo. "Por conta desse raciocínio, criei uma história que não trata de religiosidade - poderia ser um terreno perigoso -, mas de espiritualidade", explica Spohr, voltando-se novamente a um de seus avatares. "George Lucas seguiu caminho semelhante ao identificar como "Força" e não "Deus" o estímulo espiritual dos heróis. Com isso, não ofendeu nenhuma crença."

Com tal premissa, o livro de Spohr criou uma crescente legião de fãs. Publicado inicialmente de forma independente pelo autor, logo se tornou um sucesso de vendas no site Nerdstore, no qual atingiu a marca de 4.600 exemplares vendidos apenas pela internet e divulgado espontaneamente pelos internautas. "Comecei a receber inúmeros comentários, que me ajudaram a fazer uma nova versão da história, no ano passado."

O fenômeno despertou a atenção dos editores do Grupo Record que, por meio de um de seus selos, a Verus, contratou o título e o lançou nacionalmente este ano. Em pouco tempo, foram vendidos 20 mil exemplares, somando quatro edições. O sucesso foi consolidado na Bienal do Livro de São Paulo, quando filas enormes de leitores foram convocadas pelo Twitter - o tag dele (#AbdA) já esteve entre os Trending Topics da rede no Brasil. "Costumo brincar que eles são meus patrões, que pagam meu salário", conta Spohr, que também ambienta sua história no Rio de Janeiro. "Por que não? Dou a desculpa de que o Brasil é um dos países neutros."

TRECHO

"Ao divisar o ambiente, percebi que estivera deitado em um sarcófago, ou assim parecia, coberto até a...borda com um líquido incolor, misturado a nódoas vermelhas de sangue. Na superfície da água flutuavam fragmentos picotados de plantas, ou melhor, ervas..."

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