Um estádio inteiro a serviço de sua majestade

Como em 1993 - quando Madonna e Michael Jackson se apresentaram em São Paulo pela primeira vez -, Paul McCartney chegou por último e aniquilou o resto, depois de duas apresentações memoráveis na cidade. Dá pra alguém com um mínimo de bom senso dar ouvidos aos shimbalaiês da vida depois disso? Never. O segundo e último show da turnê de Sua Majestade Beatle no Estádio do Morumbi veio cercado de novidades boas e ruins. O aspecto negativo não tem a ver com ele. Segunda-feira, chuva e multidão indo pro Morumbi são uma combinação fatal: caos no trânsito, irritação, ansiedade, demora. Não há pontualidade britânica que se mantenha com São Paulo nessa situação. Daí que o show atrasou um pouco mais de dez minutos, mas o aguaceiro deu uma trégua e nas mais de duas horas que se seguiram foi só felicidade. As boas surpresas já vieram desde o início do roteiro, com a troca de Venus and Mars por Magical Mystery Tour, depois a inclusão de Two of Us, etc.

Crítica: Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2010 | 00h00

Em vários aspectos o show de Paul era previsível: todo mundo sabia que ia ser antológico, que vovôs e netos (como em todo grande show de classic rock, vide Aerosmith) cantariam lado a lado seus hits atemporais, que muitas lágrimas de emoção rolariam dos olhos petrificados. Bonito demais de se ver.

Paul repetiu várias frases decoradas (outras lidas) em português - como tudo legal, galera?", "vocês são maravilhosos" -, fez sua dancinha discreta de sessentão, homenageou John Lennon, George Harrison, interagiu o tempo todo com a imensa plateia, esbanjando carisma e tal. Preparou números de grande efeito para comover uma arena, com canções como Hey Jude (com o estádio inteiro fazendo coro), Band on the Run, A Day in the Life, Live and Let Die, que variam de ritmo e andamento crescendo até o orgástico desfecho, e baladas grudentas.

O efeito nem sempre é obtido por meio de explosões e fogos de artifício. Basta, como fez antes de cantar Paperback Writer, informar que aquela guitarra era a mesma que ele tocou na gravação original da canção nos anos 1960. Delírio, urros, uivos - a que ele também recorreu, arremedando a plateia, predominantemente jovem, e até emitindo uns latidos.

Disposição. Mesmo com a voz bem conservada, ele se esforça para alcançar os agudos e tons mais altos de canções como My Love, Hey Jude e Helter Skelter (o Everest da cordilheira de clássicos dos Beatles e da carreira solo). Uma atravessadinha ou outra também se faz perceber. Mas quem se importa? Exceto uns malas endinheirados que em vez de desfrutar esses momentos de grandeza perdiam tempo e atrapalhavam quem queria ouvir música falando inutilidades ao celular, os súditos estavam todos ali a serviço de sua majestade. "Nunca imaginei que fosse ver um Beatle ao vivo", comentou um jovem que nem tinha nascido quando Lennon foi assassinado. Numa das várias vezes em que Paul comoveu o estádio, ao cantar Let it Be - com as luzes de isqueiros, de telas de celulares e flashes de câmeras fotográficas dançando nas arquibancadas -, um senhor enxugava as lágrimas, agradecendo por estar vivo para presenciar tal momento. O clima era esse.

Não faltou quem comparasse Paul McCartney a Roberto Carlos, por motivos evidentes, mas sua majestade do yeah-yeah-yeah, além de manter um certo ímpeto roqueiro, parece mais disposta do que o rei do iê-iê-iê a reanimar canções em que poderia demonstrar tédio ao repetir pela enésima vez. Sua banda, "fantástica", como ele mesmo disse em português, obviamente contribui para a alta voltagem da performance, detalhadamente coordenada. O baterista, que parecia saído do Sepultura, acompanhou o ídolo no bom humor e até fez gestos da dança de Macarena.

Mais do que alimentar o próprio mito vivo, como um dos que colocaram a Inglaterra no mapa-múndi musical, Paul McCartney despejou uma enxurrada de musicalidade até nas brincadeiras mais pueris com seu público. Depois de Yesterday e Helter Skelter, o melhor mesmo é a gente ficar em silêncio por um bom tempo.

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