Um espetáculo que cruza fronteiras

Impedido de sair do país, dramaturgo iraniano criou White Rabbit, Red Rabbit, que prescinde de diretor e ensaios

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h13

Um autor de teatro não pode sair de seu país. Mas quer, de alguma maneira, cruzar as fronteiras para que o mundo inteiro conheça o que escreveu. O que fazer? Diante desse dilema, o iraniano Nassim Soleimanpour escreveu uma obra peculiar. Em White Rabbit, Red Rabbit que chega hoje ao Sesc Vila Mariana, o dramaturgo criou uma estrutura que prescinde da figura do diretor. Também não precisa de cenário, iluminação, figurinos ou ensaios com o elenco. "Como eu poderia encenar um espetáculo ao redor do mundo se eu não conseguia nem sair do meu país? A resposta foi dirigir os atores na frente do público por meio do meu texto", disse Soleimanpour, em entrevista ao Estado por e-mail. "Essa situação me levou a ter que pensar o teatro de outra maneira."

No palco, um ator recebe um envelope fechado. Lá, está o texto que, necessariamente, ele nunca deve ter lido antes. Aliás, qualquer tipo de informação sobre a obra está vetada. E, por isso, é necessário um intérprete diferente a cada noite.

Ao ler tal descrição, é fácil supor que assistir à peça se assemelha a experiência de acompanhar uma leitura dramática, como tantas que se veem por aí. Porém, alguma coisa na construção do texto de Soleimanpour o diferencia: White Rabbit, Red Rabbit se parece pouco com uma representação tradicional. Mais exato seria defini-lo como um encontro entre esse autor ausente com o público e com quem que estiver no palco. Para as sessões brasileiras, foram convidados atores, como Hugo Possolo, Guilherme Weber, Clara Carvalho, Danilo Grangheia e Luciana Paes. "As pessoas amam esportes. Adoram jogos digitais. O teatro tem essa capacidade de se desenvolver em estruturas", define o dramaturgo.

Em qualquer teatro, um aviso sonoro solicita ao espectador que desligue o seu celular. Aqui, o dramaturgo pedirá para que todos fiquem com os telefones a postos e lhe enviem mensagens, com fotos ou impressões.

Até muito recentemente, ele nunca havia visto sua peça encenada. Sua recusa em se alistar no serviço militar o impedia de sair do Irã. Mas, graças ao diagnóstico de uma falha em seu olho esquerdo, ele pôde finalmente ser dispensado do exército em janeiro de 2012. Em fevereiro deste ano, já de posse do passaporte, viajou até a Austrália e assistiu, pela primeira vez, à própria criação.

A estreia de White Rabbit, Red Rabbit aconteceu no Canadá, em 2011. Desde então, já foi vista em países como Egito, Inglaterra, Escócia e Brasil, onde compôs a programação da última edição do Festival Internacional de São José do Rio Preto.

As habilidades do dramaturgo em descobrir formas incomuns de contar sua história certamente contribuem para o sucesso da peça. Mas há ainda a capacidade de entrar em território eminentemente político sem apelar para dogmatismos.

Constantemente, o autor tematiza a própria trajetória. Só que de maneira metafórica. Existe a história de um coelho barrado por um urso de entrar em um circo. Há, ainda, o relato sobre uma experiência com um grupo de coelhos famintos. E, nessas fábulas de feições despretensiosas, considerações sobre o sentido da arte, o suicídio, o papel do autor. A política sai do campo das abstrações para ser encarada como responsabilidade individual. "Nós fazemos o mundo. Nós, como indivíduos, fazemos guerras, destruímos terras, abusamos de crianças. Todos somos políticos."

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