Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Um espetáculo popular, mas no bom sentindo

Inspirado na estética do teatro de revista, o musical Bixiga acerta o tom

Neyde Veneziano, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

A fila que se forma na frente da bilheteria do Teatro Sérgio Cardoso é enorme. O motivo se chama Bixiga, um musical na contramão... Em meio aos ecos do teatro de revista e à moda dos musicais, o espetáculo tem por tema o famoso bairro de São Paulo, com suas histórias, seus causos, seus tipos, cantinas, teatros, contradições, futebol e samba. Nada poderia ser mais adequado para comemorar os 30 anos do Teatro Sérgio Cardoso: um teatro situado no coração do Bixiga.

Os diretores classificam-no de "musical cômico brasileiro". Mas a inspiração e a estrutura vêm, indubitavelmente, do teatro de revista. Em Bixiga, as convenções revisteiras são muitas: enredo fragmentado, números de cortina, tipificações, alegorias, piadas fáceis, assuntos da atualidade, músicas populares, escadaria e apoteose. Tudo facilmente identificável pela plateia e preparado para emocionar sem dar muito trabalho ao cérebro.

Historicamente, a revista sofreu preconceito, foi rejeitada pelos intelectuais e maltratada pela crítica exatamente por se tratar de uma estética de fácil entendimento e (aparentemente) espontânea. O grande Arthur Azevedo desculpava-se publicamente por ganhar dinheiro com teatro de revistas afirmando não ter sido ele o inventor do gênero.

Mas agora, a revista é cult. Há pesquisas universitárias, novas publicações e grupos se dedicando a essa modalidade. Todos em busca da tal brasilidade. Porém, ainda são poucas as iniciativas que encontram o tom adequado. O diretor Mario Masetti buscou esse tom e acertou em quase tudo. O espetáculo agrada, se comunica e leva seu público popular ao delírio.

Como na revista, o texto foi escrito e bem estruturado a seis mãos. Mas os diálogos, as situações, os personagens e os quadros são ingênuos, calcados no antigo humor radiofônico. Esse tipo de graça, tirada de trocadilhos como "afroforescente", resiste hoje somente em alguns humorísticos de TV. O maior deslize é o quadro Assembleia Teatral que trata os atores como um bando de desligados, sem voz e sem posições políticas, durante o período da repressão. Essa brincadeira fragiliza um pouco espetáculo e incomoda quem viveu a época, embora a sátira e a paródia sejam recursos recorrentes na revista.

A ótima cenografia de Beto Mainieri se transforma agilmente em cortiços ou cantinas, com belos efeitos poéticos sem esquecer a escada da revista. Os figurinos têm problemas conceituais e não acompanham a eficácia do cenário. Os homens de cuecas (que de longe parecem calças curtas) e as atrizes com armadas saias estampadas lembram festas caipiras.

O glamour da revista quase não aparece insinuando-se em dois números de plateia. Pena que a equipe não tenha tido acesso às clássicas canções apimentadas compostas por revisteiros ilustres. Percebe-se que, embora com muita vontade, a atriz repete velhas piadas sem estar naquele "estado de vedete" de se achar poderosa, leve, bem-humorada, sensual e inteligente. Sob o figurino do glamour, as vedetes do passado eram livres para provocar, parodiar, denunciar. Elas eram as grandes atrações.

Dilema. Para a formação do elenco do Bixiga, houve oficinas preparatórias. O resultado foi excelente no que se refere à interpretação, ao entendimento do gênero e à união do grupo. Mas há um dilema que persegue diretores no início de montagens musicais brasileiras: optar por cantores-atores ou por atores que cantam? A preparação vocal deixou a desejar e atrapalhou a boa investida paulista provocando desequilíbrio.

Eduardo Silva (a estátua de Adoniran), Ricardo Pettine (coronel e o marido italiano) e Marta Dias (a alegoria do Bixiga) são os que se destacam pelo canto e interpretação. Paulo Goulart Filho (ótima presença em cena) criou as excelentes e eficazes coreografias. A música é um dos pontos altos de espetáculo. E, como na revista, também foram criadas por mais de um compositor. Há canções belíssimas e perfeitas, por terem melodia agradável e fácil.

A produção da Secretaria de Estado da Cultura presenteou o público com a participação (nada mais nada menos) da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo. Orgulho paulista, a orquestra dá a qualidade inequívoca que as composições merecem. E a gente sai cantarolando a canção de Nelson Ayres: "Meu coração mora no Bexiga / E o Bexiga mora no meu coração..." Nada mais popular no melhor sentido da palavra. Nada mais revisteiro. Porque este elenco se apoia no jugo irredutível da teatralidade: a comunicação com a sua plateia.

NEYDE VENEZIANO É DOUTORA EM TEATRO PELA ECA/USP E AUTORA DE QUATRO LIVROS SOBRE TEATRO DE REVISTA

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