Um espetáculo em três versões

Experimento foi batizado como 'Sem Título', mas traz uma questão precisa

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2013 | 02h17

O experimento foi batizado como Sem Título, mas traz uma questão precisa. Trata-se do primeiro resultado que Vanessa Macedo produz para testar até onde a dramaturgia de uma partitura fechada se mantém quando é realizada por corpos sem familiaridade com o vocabulário que a constitui. O 'teste' foi realizado por três exímios representantes daquela espécie de artistas que sabem o que fazer em um palco e que, infelizmente, vem se tornando rara.

Os três convidados para aprender a coreografia de 15 minutos de Vanessa Macedo e criar uma encenação própria com o seu material foram: Ângela Nolf, que fundou o Balé Ópera Paulista em 1983 e hoje coordena a curso de graduação em Dança na Unicamp; Roberto Alencar, ex-Cia. Borelli, que ganhou o 14.º Cultura Inglesa Festival com Um Porco Sentado (em parceria com Lúcia Romano); e Lavínia Bizzotto, ex-Quasar, atual membro da companhia de Renato Vieira.

Assisti-los dançando é um presente. A qualidade da movimentação de cada um merece um manifesto exclusivo para exemplificar o que presença cênica quer dizer, como cuidar do acabamento de cada um dos movimentos, como fazer do espaço um parceiro, as maneiras precisas de distribuir o peso de cada ação, por mínima que seja, além, é claro, da maestria técnica indispensável para dar nascimento a qualquer tipo de dança, com ou sem partitura.

A preocupação de Vanessa parece ter como prioridade não apenas a fidelidade à partitura, mas também o modo do movimento ser realizado. Foi um primeiro momento neste tipo de investigação. O próximo poderia dilatar a experiência que acaba de ser realizada trocando as suas variáveis, ou seja, testando o que sucede quando artistas competentes, maduros e que não pertencem à sua companhia, "naturalizam" a sua coreografia nos seus corpos usando a mesma encenação.

Quem acompanha os 10 anos de suas realizações na companhia que fundou, a Fragmento, sabe que Vanessa se interessa pelo tipo de coreografia que a maioria supõe ser o denominador comum da dança: tem marcação fixa, mantém conexão com a música e reúne uma coleção de passos. No século 20, foi sobretudo a partir dos anos 1970 que esse tipo de coreografia passou a ser questionado por muitos artistas em outros tipos de entendimento de composição. Justamente por isso, o interesse de Vanessa em explorar a ligação da dramaturgia com a maneira de realizar a coreografia é de grande relevância para todos, inclusive para os que não trabalham com esse tipo de partitura.

A discussão tem complexidade. Afinal, todo fluxo de movimentos que carrega uma assinatura enfrenta a seguinte condição: cada um dos movimentos vai tomar a forma que o corpo que os executa conseguir lhes dar. A singularidade que irrompe nas três danças de Sem Título, deixam à percepção o reconhecimento da partitura e também das dramaturgias locais que Ângela, Roberto e Lavínia criam. Tudo leva a crer que a hipótese que daí resulta é a do reconhecimento da força da assinatura que um intérprete experiente também tem. Muito da beleza da dança tem a ver com isso.

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