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Um escritor sem vocação para a fama

Assim é Charles Portis, autor de Bravura Indômita, agora filme dos Coens

Charles McGrath, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2011 | 00h00

O lançamento de Bravura Indômita, dos irmãos Cohen, no dia 22 de dezembro, nos EUA (no Brasil, será em 21 de janeiro), atraiu para Charles Portis boa dose de atenção... indesejada. O autor do romance de 1968, a partir do qual o filme é adaptado (assim como foi a versão original, de 1969, estrelada por John Wayne), é alérgico à fama.

Não estamos falando de um autor recluso ao estilo de Pynchon. Ele às vezes é visto em Little Rock, Arkansas, onde mora há mais de 50 anos; Portis até frequentou um evento de gala promovido recentemente na cidade pela revista literária Oxford American, e consentiu em receber um prêmio pelo conjunto de sua obra, apesar de ter se sentado na 14.ª fileira, tão longe do palco quanto possível. O escritor não usa endereços de e-mail; seu número de telefone não está na lista; recusa pedidos de entrevistas (entre eles o de falar para este artigo), e se esconde dos fotógrafos como se fizesse parte do programa de proteção a testemunhas. Faz quase 20 anos que não publica um livro.

A escritora e cineasta Nora Ephron, que conheceu Portis no início dos anos 60, quando ele era repórter a serviço do New York Herald Tribune, contou que naquela época o autor era mais sociável. "Charlie era encantador, quase a alma das festas", lembrou ela. "Mas estamos falando de um repórter de jornal que não tinha telefone. O Tribune teve de obrigá-lo a aceitar uma linha. Assim, mesmo naquela época, alguns traços desse comportamento já eram perceptíveis."

A reclusão só fez aumentar seu status de autor cult preferido pelos autores cult, celebrado por seguidores pouco numerosos, mas muito dedicados. Além de Bravura Indômita (True Grit), ele publicou outros quatro romances (suas cinco obras foram recentemente relançadas pela editora Overlook Press), e faz anos que os iniciados na seita mostram esses livros a novos leitores, como maçons que ensinam o aperto de mão secreto. O jornalista Ron Rosenbaum, considerado extraoficialmente o grão vizir e sumo sacerdote dos admiradores de Portis, o chamou de "possivelmente o talento mais original, indescritível e sui generis já ignorado pela cultura literária americana".

Bravura Indômita, o segundo romance de Portis, transformado em série pelo Saturday Evening Post e presente na lista de mais vendidos do New York Times por 22 semanas, é na verdade uma obra polêmica entre os admiradores do autor. Alguns deles, como a romancista Donna Tartt, consideram o livro a obra-prima de Portis, um romance comparável a Huckleberry Finn.

Outros, como Rosenbaum, queixam-se de que Bravura Indômita desvia a atenção das outras obras de Portis, menos conhecidas e mais bem-humoradas: Norwood (1966), The Dog of the South (1979), Masters of Atlantis (1985) e Gringos (1991). O autor Roy Blount Jr., velho amigo do escritor, deu a entender recentemente que o próprio Portis se sente constrangido pelo sucesso de seu livro.

"Acho que foi por isso que no próximo romance, Dog of the South, ele estabeleceu para si mesmo o desafio de escrever um livro engraçado contado por um narrador chato", disse Blount. "É por isso que outros autores gostam tanto dele." Bravura Indômita, a história de Mattie Ross, menina de Yell County, Arkansas, que aos 14 anos pede a ajuda do xerife caolho Rooster Cogburn para vingar a morte do pai pelas mãos do pistoleiro bêbado Tom Chaney, não é desprovida de momentos cômicos. Trata-se ao mesmo tempo de um western absolutamente satisfatório e também de uma paródia de western.

Mas, diferentemente dos outros livros de Portis, Bravura Indômita é uma obra de época - a história se passa em 1873, mas é relatada décadas mais tarde, quando Mattie já se descreve como velha solteirona e ranzinza - e a voz da narradora é um verdadeiro feito da ventriloquia histórica.

A prosa de Mattie é rígida, formal (qualidade adoravelmente capturada pelos irmãos Cohen), um pouco crente e afeiçoada aos lugares-comuns, dada a citações bíblicas e aspas pouco ordenadas: "Pois vou além e digo que todos os gatos são maliciosos, embora muitas vezes úteis. Quem nunca viu Satanás na expressão dissimulada deles? Alguns pastores dirão que isso não passa de "baboseira" supersticiosa. Minha resposta é a seguinte: Pastor, pegue sua Bíblia e leia Lucas 8:26-33."

Mattie é adorável à sua maneira e, apesar de admirar Rooster pela bravura, ela própria não fica atrás em se tratando dessa característica. Mas Mattie é também mal-humorada, orgulhosa e totalmente desprovida de insegurança e inibição. Ela não faz ideia da impressão transmitida por ela e por suas palavras sobre a página, e não se importaria nem se as conhecesse.

Traço sulista. The Dog of the South e Gringos também são narrados na primeira pessoa, e as outras duas obras se aproximam bem disso. Em todos esses textos, a voz do narrador é solta e informal, entregando-se até a algumas digressões, e apresentando um perceptível traço sulista. Os amigos de Portis dizem que ele fala mais ou menos dessa maneira e, a julgar por Combinations of Jacksons, uma memória publicada por ele na revista The Atlantic em 1999, seu estilo não ficcional se assemelha à prosa de sua ficção: nos dois casos ele age como um grande observador, sempre alerta ao detalhe incomum e revelador.

Seus outros romances apresentam a mesma aparência de seriedade encontrada em Bravura Indômita. A maioria dos romances cômicos - pense em autores como P. G. Wodehouse e Ring Lardner - é relativamente transparente: tentam ser engraçados e incluem o leitor na piada. O truque dos livros de Portis, em especial no caso daqueles que são narrados em primeira pessoa, está na sua aparência de seriedade. São repletos de acontecimentos estranhos e pessoas bizarras com nomes como Norwood Pratt, Raymond Midge e o dr. Reo Symes, inventor do Método Brewster para a cura da artrite, muito ignorado pela medicina. Mas tudo isso é apresentado sem nenhuma sugestão de ironia nem nada que indique que toques de pastelão como anões de fala mansa, entregadores dotados de hábitos extravagantes e idosos que vestem bonés de pele de bode em formato cônico sejam minimamente incomuns.

Portis evoca um mundo excêntrico e absurdo, mantendo no narrador uma expressão impassível. Como resultado não encontramos em seus livros muitas piadas prontas nem momentos inspiradores de sonoras gargalhadas. Em vez de pirotecnia cômica, suas obras fervem com um contínuo brilho hilário.

Diferentemente da cuidadosa trama de Bravura Indômita, os outros livros de Portis são como histórias de vira-lata. Em Norwood (depois adaptado para o cinema em filme estrelado por Glen Campbell), Norwood Pratt viaja desde seu lar em Ralph, Texas, até Nova York, para cobrar uma dívida de US$ 70, e acaba noivando com uma moça a quem conhece num ônibus da Trailways.

Em The Dog of the South, Ray Midge viaja de carro de Little Rock até o México em busca de sua mulher, que fugiu com o primeiro marido a bordo do Ford Torino de Ray. Masters of Atlantis é sobre dois sujeitos que criam a Sociedade Gnomon, uma seita esotérica ao estilo Rosacruz que tem como base a sabedoria da cidade perdida de Atlântida. E em Gringos, um americano expatriado no México se junta a um grupo de arqueólogos e fanáticos por óvnis na busca por uma cidade perdida maia.

Mas, de um jeito ou de outro, o subtexto de todos esses romances é a grande época de Melville, da atração americana por conspirações secretas e conhecimentos arcanos, e a nossa preferência pelos embusteiros, trapaceiros e charlatães de todo tipo.

Cansando o leitor. Além disso, no panteão de farsantes de Portis, os autores são tidos em altíssima conta. Temos John Selmer Dix, autor de With Wings as Eagles, um inspirador manual para vendedores, considerado por seus admiradores um autor mais talentoso do que Shakespeare; o desonesto escritor Dub Polton, autor de Hoosier Wizard, uma biografia política inventada praticamente do começo ao fim; e Lamar Jimmerson, compilador do Codex Pappus, texto sagrado da Sociedade Gnomon, que inclui deliberadamente numerosas passagens confusas com o objetivo de "cansar e enojar o leitor", afastando-o do livro.

Não podemos deixar de reparar que todos esses textos não são inteiramente diferentes dos livros de Portis em termos do grau de devoção e entusiasmo que evocam em seus leitores. Não são autoparódias, mas, em vez disso, alertas em relação ao caráter dúbio da reputação e aos perigos de se levar demasiadamente a sério o culto ao autor.

"Falar sobre si mesmo é algo que Portis consideraria falso e estranho", disse William Withworth, ex-editor da Atlantic e velho amigo do autor. "Seria como pedir a ele que se levantasse e cantasse como Frank Sinatra, ou que participasse da Dança dos Famosos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

QUEM SÃO

IRMÃOS COEN

CINEASTAS

Joel e Ethan Coen escrevem e dirigem seus filmes juntos há mais de 20 anos. Filhos de um economista e de uma historiadora da arte, estrearam com Gosto de Sangue, em 1984, o que já revelava seu gosto cinematográfico: tramas absurdas, acompanhadas por uma câmera também original. Ganharam três Oscars por Onde os Fracos Não Têm Vez (2007).

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