Um escrevinhador esquecido por longo tempo

Nome consagrado do romance latino-americano, ele é mestre de autores contemporâneos que [br]aprenderam seu ofício dissecando suas obras

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2010 | 00h00

O único problema verdadeiro do Prêmio Nobel de Literatura de Vargas Llosa é sua embaraçosa demora: mestre consagrado do romance latino-americano, e uma de suas figuras mais controversas, Vargas Llosa é um monumento vivo da literatura mundial com influência direta em ótimos romancistas como Ian McEwan e Haruki Murakami que, ironicamente, estavam cotados para ganhar o prêmio que cada vez se tornou mais alusivo a Vargas Llosa. Até este ano.

O Nobel é um prêmio europeu que incursiona em outras geografias. Em termos de qualidade, mesmo quando o romance latino-americano era o mais brilhante praticado no mundo, os suecos jogavam com a prata da casa. Se realista, Juan Carlos Onetti, Alejo Carpentier, Jorge Luis Borges, Carlos Fuente, Juan Jose Saer e Guillermo Cabrera Infante teriam sido agraciados.

Até Llosa já poderia ter ganhado esse prêmio, e isso duas décadas atrás. Esse prêmio, de 2010, deveria ser de Ricardo Piglia, o mais brilhante autor de sua geração. Em relação ao Nobel, a América Latina pode se sentir defraudada. Os prêmios para García Márquez e Octavio Paz, dois brilhantes autores, não cobrem a complexidade da literatura latino-americana de expressão espanhola.

A obra de Mario Vargas Llosa é exuberante. Começando com um ciclo de romances de denúncia complexos - A Cidade e os Cachorros (1962), A Casa Verde (1966) e Conversa na Catedral (1969) -, brilhantes e complexos, em que Vargas Llosa ataca frontalmente as instituições militares do país - que no período era atacar todas as instituições, uma vez que o Peru era uma ditadura.

Não existia nada como Vargas Llosa antes na literatura latina. Tempos paralelos, flashbacks e flashforwards, frondosos discursos indiretos livres, fragmentos, prosa documental e prosa lírica - tudo isso com um espanhol ágil e preciso, e uma legibilidade incomum. Vargas Llosa teve precedentes - Onetti, por exemplo -, mas seu esforço de modernizar a prosa em castelhano foi o projeto mais radical do momento.

Era como se toda técnica do romance modernista estivesse sendo filtrada pela mente de um jovem peruano que, escrevendo freneticamente no exílio, seja em Paris, Londres ou Barcelona, fazia os leitores verem de forma diferente os temas repisados da literatura social tão comum na época.

Em sua longa carreira, Vargas Llosa apenas diluiu em romances menos ambiciosos - com exceção de A Guerra do Fim do Mundo (1981), sobre o conflito de Canudos - as técnicas que introduziu em seus primeiros três romances. Sua obra é a mais plural de toda pletora brilhante de romancistas latino-americanos: do humor inteligente - Pantaleão e as Visitadoras (1973) - ao thriller político - A Festa do Bode (2000) -, da comédia de costumes - Tia Julia e o Escrevinhador (1977) - ao romance noir - Quem Matou Palomino Molero? (1986) -, passando pela escrita erótica - Os Cadernos de Don Rigoberto (1997) -, Vargas Llosa produziu a literatura mais variada e plural entre seus pares.

Longe da figura pública controversa em que se transformou, com opiniões políticas irregulares (e até certo ponto, constrangedoras), Vargas Llosa é um mestre da arte do romance que já ganhou um reconhecimento singular ao ser mestre da maioria dos mestres do romance contemporâneo. Per Petterson e Javier Marías, Ian McEwan e Haruki Murakami, Kenzaburo Oe e Orhan Pamuk, Nuruddin Farah e Roberto Bolaño - todos brilhantes autores que se graduaram na arte do romance dissecando as obras de Vargas Llosa. O prêmio Nobel de 2010 transcendeu geografias ao premiar Mario Vargas Llosa. Desta vez, eles acertaram.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO

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