Um épico nórdico em movimento

Sigur Rós lança 'Kveikur', disco que dá uma espinha rítmica ao lendário rock glacial dos heróis islandeses

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2013 | 02h08

Há 15 anos, o grupo islandês Sigur Rós é sinônimo de espaço e lirismo transformados em música na velocidade de uma geleira navegante. Citada como influência por dezenas de bandas, evocada por compositores de trilha quando um diretor quer musicar o vasto, o etéreo ou o vazio, a obra dos roqueiros nórdicos é um dos pilares sólidos do rock experimental de veia pop da última década. Agaetis Byrjun, de 1999, o disco que definiu a trajetória da banda, é até hoje referência para centenas de produtores em busca de um equilíbrio entre ambiência e canção. O etéreo falsete do cantor Jónsi dita os moldes de qualquer canção que proponha um indie rock glacial.

Toda essa experiência forma um Sigur Rós preciso e sutilmente reformulado no novo disco Kveikur, lançado há duas semanas e disponível para download através do iTunes. A precisão vem da maturidade; a reformulação, da busca por um novo ângulo em uma estratégia musical já consolidada. Depois de uma discografia de 16 anos, Sigur Rós parece ter navegado por muitos dos afluentes que o sucesso de Agaetis Byrjun sugeriu no início da década passada. A banda já teve sua fase acessível, com Takk, de 2005, já flertou com o folk, em Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust, de 2008, e já se entregou por inteiro à vertente ambient e meditativa de sua música, em Valtari, lançado no ano passado. Mas com um foco renovado em sua instrumentação (talvez decorrente da saída do tecladista Kjartan Sveisson, que estava cansado de viajar), Kveikur dá nova cara a um clássico Sigur Rós.

De primeira, nota-se uma exploração de ruídos que se contrapõem às harmonias como uma persona non grata, que acaba por se fundir com o que vem a ser uma proposta mais ácida do grupo em Kveikur. É uma notável guinada do que ouvimos ainda no ano passado, em Valtari, em que panoramas de música ambient são um deleite contínuo, sem destaques, que almeja apenas a constância meditativa através de texturas recorrentes.

Kveikur é uma pedra nesse lago de reflexão. Logo, os ruídos começam a dialogar com a percussão, e a variedade de timbres usados pelo baterista Orri Páll Dýrason ocupa uma função quase tão destacada quanto a de Jónsi. Kveikur engrena na terceira faixa, Ísjaki, um belo exemplo de como transformar ambiências em poesia harmônica, através de qual são filtrados gestos de indie pop. Estruturada com um refrão nem sempre nítido nas músicas do Sigur Rós, Ísjaki coopta o espaço criado pela banda e o transforma em algo mais próximo de um hit. O inegável potencial épico do grupo se faz ouvir igualmente em Rafstraumur.

De Yfirbord, que tem batida techno, em diante, nota-se como os ritmos deram uma espinha dorsal à música do Sigur Rós em Kveikur. Logicamente, o grupo sempre teve bateria, mas o foco sutil em texturas rítmicas que sugerem até um pouco do que se ouve em círculos de techno autoral, é uma bela sacada dos islandeses, e acaba por ser o elemento que reacende mais uma vez a chama criativa do grupo. Kveikur, em islandês, quer dizer pavio, um nome propício para a movimentação agitada que os icebergs de Sigur Rós ganham no disco. Até sossegarem com a derradeira Var.

SIGUR RÓS

Kveikur

US$ 9,99 (iTunes)

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