Um enfant terrible às vésperas dos 70

Homenageado em Campos do Jordão, Aylton Escobar diz viver crise criativa - e não perde capacidade de criar debates

JOÃO LUIZ SAMPAIO , CAMPOS DO JORDÃO, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h15

A fama de enfant terrible remonta aos anos 60 - mas não se perdeu com o tempo. Homenageado deste ano do Festival de Inverno de Campos do Jordão, o compositor Aylton Escobar, que completa 70 anos em outubro, recebe a honraria com sensações conflitantes. "O que sinto é uma angústia", diz ele. "É como naqueles zoológicos astecas, em que ao lado de animais eram exibidos pessoas com algum tipo de deficiência. Eu não precisava ser homenageado, preferia simplesmente que eles tocassem a minha música e a de tantos outros autores brasileiros nas temporadas."

A homenagem, ainda assim, existe. Desde o começo de julho, obras de Escobar estão sendo tocadas por diferentes grupos. E hoje o Coro da Osesp faz concerto em Campos para marcar o lançamento de um disco dedicado inteiramente a peças suas, inaugurando o selo digital da orquestra, dedicado a gravações de compositores e intérpretes brasileiros - o CD pode ser baixado gratuitamente a partir de hoje no site osesp.art.br, em uma medida que, segundo o diretor artístico, Arthur Nestrovski, permitirá o acesso de um número maior de pessoas ao trabalho dos artistas nacionais. E Escobar, o que achou do lançamento no formato digital? "É inevitável, com a crise das gravadoras e das lojas. É claro que eu preferiria ter o disco físico, mas, no fundo, quanto a direitos autorais, o que a gente ganha não dá nem para comprar uma caixa de chiclete. Então, se o estupro é inevitável..."

O disco cobre diversas fases da carreira de Escobar, desde peças dos anos 60, "obras que eu nem era nascido quando escrevi", brinca. "Algumas delas vão assustar as pessoas pela ingenuidade, pela singeleza. A pessoa vai ouvir e pensar: bom, ele é capaz de escrever em uma linguagem da qual poderíamos até gostar; por que então escreve essas coisas tão confusas, que beiram o inaceitável?"

A resposta ele mesmo dá, ao relembrar sua trajetória. Aluno, em São Paulo, de Camargo Guarnieri, ele começou a carreira sob a influência do nacionalismo. Mas, em uma viagem aos EUA, ouviu de um crítico que tinha talento, mas que, infelizmente, sua música era de "algumas décadas atrás". "Meu nacionalismo era prudência, e aquele comentário teve um impacto enorme em mim. Quebrei tudo. Foi uma ruptura física e emocionalmente dolorida", conta. Ele mudou-se para o Rio, começou a escrever também para o teatro - e o palco, explica, ajudou-o a executar uma série de experiências musicais. "O teatro está em mim desde pequeno. Sempre brinquei muito sozinho, minha infância foi solitária e imaginosa. Eu chegava a ensaiar os brinquedos", lembra.

Nos anos 60 e 70, o compositor relacionava-se com a música "do respeito total ao amor selvagem, que rasga, quebra, sangra". "Eu estava escrevendo guiado pela minha fantasia. E gostava de desafiar as pessoas, de criar discussão. Nesse processo, acertei e errei. Mas eu precisava explodir o laboratório para descobrir o que a minha ciência pedia." Seja como for, o texto, a literatura estiveram sempre presentes de alguma forma em sua criação. "Eu li muito quando pequeno, e havia também o cinema. E a ópera. Minha mãe tinha uma voz linda de soprano, todos em casa cantavam. A música era o princípio de tudo."

Escobar relembra uma anedota referente a um episódio do final dos anos 60, quando foi convidado a escrever uma peça a ser utilizada em um concurso de corais. A primeira que compôs foi considerada difícil demais e ele, então, escreveu Sabiá Coração da Minha Viola. "Era uma brincadeira com Villa-Lobos, cheia de ironia. Mas as pessoas não se deram conta. Ela já foi cantada no mundo todo, até hoje. Certa vez, na Venezuela, me receberam dizendo: este é o criador do Sabiá. E eu respondi: o criador do sabiá é Deus, eu só escrevi uma pecinha sobre ele." Escobar fala do Sabiá como um "regresso extraordinário" ao nacionalismo. Mas, para além das anedotas, vê nele um aprendizado. "Com o tempo, fui depurando as minhas ideias, meus objetivos como compositor. E me dei conta de que, se precisar, sei desenhar o perfil de uma laranja, entende? Se quiserem uma peça tonal, eu faço. E faço bem."

O compositor se define hoje em uma nova crise criativa. "Estou amarrado, recusando encomendas. Eu quero falar com as pessoas, eu quero buscar novos caminhos. Há caminhos. Mas não sei ainda o que fazer com todas essas percepções. A dor é muito maior para escrever. Fiquei mais lento, mais rigoroso, mais desconfiado e insatisfeito. Mas o caminho é esse. A ruptura é inerente ao criador. Você precisa disso. Para que a arte floresça dentro do artista, ele precisa se dar conta de que a felicidade mata."

Escobar segue um defensor do repertório brasileiro. Conta que, na quarta, conversando com músicos, ouviu comentários sobre a "pobre vida musical brasileira". "Isso me incomoda muito. Temos discursos lindos sobre a música de todos os cantos e, no que diz respeito à nossa música, o discurso é sempre horroroso, curto e culpado. Isso é ser Policarpo Quaresma? Não. É parar de falar de nós e de tocar nossa música com sotaque."

Na tarde de ontem, Escobar participaria de um encontro com alunos de composição do festival. O que pretendia dizer? "Eu estarei com eles em forma de pergunta, quero estabelecer um diálogo, conhecê-los e a música que fazem. O diálogo é importante, pois sugere movimento: da mesma forma que eles estão começando, estou continuando." Sempre indo, como diz, com a sua fantasia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.