Um encontro para discutir a herança cultural judaica

Clarice Lispector (1920-1977) é a homenageada da sexta edição da Fliporto - Festa Literária de Porto de Galinhas, que este ano mudou de endereço e começa hoje em Olinda. Como a escritora veio da Ucrânia, passou a infância no Recife e era judia, o tributo se justifica por ser o tema da festa justamente A Literatura Judaica e o Mundo Ibero-Americano. Maior que a dos anos anteriores, a Fliporto traz nesta edição grandes estrelas de literatura mundial, como o maior poeta árabe vivo, Adonis, eterno candidato ao Nobel, o argentino Ricardo Piglia, a polêmica ensaísta norte-americana Camile Paglia, o escritor canadense Alberto Manguel (leia entrevista na página ao lado), o norte-americano Bejamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, o israelense Ioram Melcer, tradutor de Fernando Pessoa em sua terra, além do escritor brasileiro Milton Hatoum, cronista do Caderno 2, entre outros.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

O escritor Antonio Campos, idealizador e coordenador-geral da Fliporto, não precisaria justificar a escolha de um tema como a influência dos judeus na criação literária latino-americana, mas, além de lembrar que a primeira sinagoga das Américas foi instalada no Recife, a poucos quilômetros de Olinda, ele assinala que "a semente da herança cultural judaica no mundo ibero-americano foi plantada em Pernambuco". Desde a época da colonização, os sefarditas estão presentes em Olinda e no Recife. Campos destaca o papel decisivo dos judeus na consolidação de Pernambuco como polo comercial do Nordeste, lembrando ainda a contribuição cultural que fez do pernambucano "um povo cosmopolita".

Clarice Lispector viveu quase uma década (de 1925 a 1934) num casarão da praça Maciel Pinheiro, no Recife. Moser, em sua biografia, conta os horrores pelos quais passou sua família na Ucrânia antes de se instalar no Brasil. E é justamente a perseguição aos judeus no continente europeu o tema da mesa que abre a Fliporto hoje, às 18 horas. Nela, Eva Schloss conta a Geneton Moraes Neto e ao escritor Moacyr Scliar como sobreviveu a um campo de concentração mantido pelos nazistas na Polônia ocupada, tema de seu livro A História de Eva (Editora Record), que será lançado após a conversa com os dois. Detalhe: a mãe de Eva casou-se com Oto Frank, o pai da menina Anne Frank.

Sobre a homenageada deste ano, dois biógrafos de Clarice, Benjamin Moser e a brasileira Nadia Battella Gotlib, debatem amanhã na primeira mesa, com mediação de Mona Dorf. Nadia publicou há 15 anos o livro Clarice, Uma Vida Que Se Conta (Editora Ática), que, como o próprio título sugere, é um ensaio que busca correspondência entre os personagens criados pela escritora e a mesma, que até ficcionalizou o espetáculo de sua morte, segundo o livro. Já Benjamin Moser viajou por todos os lugares onde viveu a escritora para construir um mosaico com grandes revelações sobre sua vida, entre elas a do estupro de sua mãe.

Duas das palestras mais esperadas são a de Albertt Manguel, Ler o Livro do Mundo, no domingo, às 10 horas, e a do norte-americano Mark Dery, um dos mais influentes pensadores da cybercultura, que fala na segunda, no mesmo horário. A sempre polêmica ensaísta Camille Paglia divide amanhã, às 14 horas, uma mesa com a filósofa Márcia Tiburi e o historiador gaúcho Gunter Axt para discutir a criação literária contemporânea e, provavelmente, o tema predileto da feminista: sexualidade.

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