Um encontro memorável

Uma Eroica memorável, em uma notável e inesquecível aula de regência. Foi o que o excelente público presente no cinzento fim de tarde de domingo na Sala São Paulo teve o privilégio de compartilhar com o maestro Lorin Maazel, em grande forma aos 81 anos de idade. Enquanto assistia ao maestro exercendo um em sua plenitude a arte da regência comandando os cerca de 60 músicos no palco, lembrei-me da resposta do violinista inglês Nigel Kennedy a um jornalista que três anos atrás perguntou-lhe se considerava a regência uma arte: "Por que alguém ficaria no pódio agitando uma batuta se pudesse tocar um instrumento?" Na ocasião, Kennedy estava em guerra contra os maestros superstars egocêntricos, mais interessados em dinheiro e prestígio do que em desenvolver uma autêntica relação musical com a orquestra.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2011 | 00h00

Sim, apesar do mercenarismo e dos egos infladíssimos, a regência é mesmo uma arte. E, quando praticada no nível que Maazel demonstrou no último domingo, é de fato algo miraculoso. A elegância dos gestos, a precisão nas indicações, os momentos em que, mão esquerda apoiada no pódio, usava a batuta praticamente como uma espada apontando as entradas. Além disso, a concepção justa dos tempos de cada andamento da Sinfonia Eroica (que substituiu a Quinta com vantagens, apesar de vários "ahs" e "ohs" espoucarem na plateia que viera para curtir as batidas do destino).

E, acima de tudo isso, o modo como os 33 titulares e as restantes três dezenas de cachezistas ficaram galvanizados com o magnetismo e a musicalidade de Maazel (não tenho certeza sobre a quantidade exata de músicos no palco, pois de onde estava não conseguia sequer ver as mãos da pianista nem tinha condições de vê-los todos). Aos efetivos, ele mostrou que a orquestra precisa acabar com o imbróglio de uma vez, acordar de sua letargia e concentrar-se no que os músicos obviamente devem saber fazer: música. Quanto aos frilas que ali estavam só para faturar um extra, embarcaram felizes e empenhados numa empolgante "trip" beethoveniana - apesar de as trompas e madeiras claudicarem em momentos cruciais, como o scherzo.

Pena que os doze estrangeiros que passaram no concurso de preenchimento de vagas tenham de aguardar a douta pesquisa do senhor ministro do Trabalho, que deve estar por aí no território brasileiro procurando o que qualificou como "similares nacionais" - se não os encontrar, os 12 poderão ser efetivados, num surrealismo atroz.

Portanto, este não foi o primeiro concerto da OSB em São Paulo e eventual sinal de seu renascimento das cinzas; foi apenas o memorável encontro de um maestro extraordinário com um grupo de músicos que se seduziu por sua arte. Para renascer, a orquestra precisa fazer um concerto de excelência com seu maestro titular.

A primeira parte mostrou uma abertura Egmont já no bom caminho, mas ainda meio sonolenta, distante do padrão de execução da Eroica na segunda parte. Foi correta a participação da pianista ucraniana Valentina Lisitsa no concerto nº 3.

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