Um encontro com a arte moderna

Logo na entrada da mostra DaAntropofagia a Brasília, por meio de uma pequena janelarecortada no praticável que separa o visitante da mostra, épossível vislumbrar o Abaporu, talvez a mais célebre pinturabrasileira depois de ter atingido preços recordes em leilãointernacional, tendo ido enfeitar ainda mais a coleção doargentino Eduardo Costantini. No entanto, a tela de Tarsila doAmaral - símbolo máximo do movimento antropofágico liderado porOswald de Andrade e que está pendurada na sala inaugural damostra - é apenas um dos vários prazeres que o público terá aopercorrer as dez salas em que foi subdividido o salão social daFaap, por um discreto projeto museográfico assinado por PedroMendes da Rocha. Mesclando surpresas e reencontros, o público acabará porconcluir que ainda há muito para se conhecer sobre essas quatrodécadas em que começou a ser cunhado o modelo de arte moderna,que se perpetua de maneira impressionante até nossos dias.Afinal, foi com a ruptura que ganhou corpo na década de 20 econsolidou-se em seguida, que a arte no Brasil conseguiutornar-se mais auto-referente. Conquistamos um grau de desenvolvimento formal capaz deassegurar uma idéia de identidade e continuidade nacionais. Oque não quer dizer que tenhamos superado - como comprova anovela em torno do Abaporu - a necessidade de referências ereferendos estrangeiros. Bom, mas se Tarsila do Amaral tem um lugar de honra naabertura da exposição, isso não quer dizer que ela seja a grandeprima-dona do evento. A força da pintura de Anita Malfatti, aescultura de Maria Martins e a modernidade de Lina Bo Bardi têmlugar de destaque garantido nessa exposição, que procuracontemplar da maneira mais eqüitativa possível a produção dequase 150 artistas. Evidentemente, algumas figuras têm primazia sobre outrase a primeira delas é Mário de Andrade. Como o curador da mostraJorge Schwartz explica, não estão apenas lá representados oMário escritor, romancista, folclorista, musicólogo e fotógrafo-, como seu espírito de desregionalização e cruzamento de váriaslinguagens orienta todo o espírito da exposição. Outro artistapolivalente, Flávio de Carvalho, é também lembrado com destaquecom uma sala especial. Ícones - Por razões até de apresentação, as artesplásticas, a fotografia e a arquitetura têm uma certa primaziasobre as outras formas de expressão artística. É difícilimaginar que um documento como o programa original da Semana de22, datilografado à máquina por Paulo Prado, rivalize em atençãocom as encantadoras telas de Guignard, Pancetti, Ismael Nery,Lasar Segall e Portinari - para citar apenas alguns dos nossosícones modernistas - ou mesmo com as fascinantes maquetes queforam realizadas especialmente para a exposição (em sua ediçãoespanhola), em Veneza e que reconstroem importantes projetos,como o do prédio do Ministério da Educação no Rio. Mas para os mais atentos, há na exposição um grandenúmero de curiosidades documentais, como por exemplo um desenhofeito pelo próprio Gilberto Freyre retratando uma casa-grande ouo cartaz da exposição feita por Tarsila na Rússia em 1931. A literatura, até pelo fato de esta ser a área deatuação de Schwartz, professor de vanguardas latino-americanasna USP, tem presença importante. Dentre os autores, aquele quemelhor pontua a mostra é João Cabral de Melo Neto, cujoenxugamento da linguagem se aproximaria do processo desimplificação da arte em direção ao abstracionismo. Além disso, ele tem uma importante relação com a Espanha que financiou a mostra antes que se cogitasse da possibilidadede exibi-la no Brasil (o que só se tornou possível graças aointeresse posterior da Faap). No caso do cinema, a dificuldade documental é aindamaior, já que nessa arte a modernidade é um pouco mais tardia.Mesmo assim há exemplares interessantes de cartazes de produçõeslocais e um diálogo curioso entre It´s All True, de Orson Wells,e uma filmagem jornalística do enterro de Stephan Zweig,projetados na mesma parede. A música, a menos tangível das artes está presente em todo o espaço expositivo, graças a um trabalhoespecial de compilação de diferentes trabalhos do período,realizado por José Miguel Wisnik e que é utilizado como trilhasonora. O encerramento fica, como diz o título, por conta deBrasília, responsável, aliás, por uma das curiosidades da mostra que traz não apenas o projeto que vimos se tornar realidadeposteriormente - afinal, a capital só foi inaugurada em 1961,portanto fora do escopo da exposição -, como os outros cincofinalistas do concurso.Serviço - Da Antropofagia a Brasília. De terça a sexta, das 10 às 21horas; sábado, domingo e feriado, das 13 às 18 horas. Faap. RuaAlagoas, 903, tel. (11) 3662-1662. Até 2/3. Abertura sábado, às17 horas, para convidados.

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