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Um elegante provocador numa era puritana

Em NY, retrospectiva 'O Discreto Charme de George Cukor' mostra talento excepcional do diretor para descobrir talentos

Stephen Farber/ Nova York, The New York Times

01 de janeiro de 2014 | 02h04

Alguns diretores de cinema preferem trabalhar consistentemente em um gênero que tenha se mostrado favorável. Outros diretores procuram se desafiar. George Cukor (1899-1983) pode ser mais conhecido por comédias românticas sofisticadas, como Boêmio Encantador, Núpcias de Escândalo e A Costela de Adão, mas se aventurou em muitas arenas diferentes nos seus 50 anos de carreira.

Ele dirigiu adaptações luxuosas de romances do século 19 (Quatro Irmãs e David Copperfield), um thriller psicológico assustador (À Meia-luz), um drama trágico sobre um ator ciumento consumado por seu papel de Otelo no teatro (Fatalidade), um par de musicais clássicos (Nasce Uma Estrela e My Fair Lady, com o qual ele ganhou um Oscar), um épico sobre a luta pela independência da Índia (Encruzilhada dos Destinos), e até um western extravagante (Jogadora Infernal).

A Film Society do Lincoln Center realiza até o dia 7 a retrospectiva O Discreto Charme de George Cukor, que demonstra a versatilidade, inteligência e o seu trabalho exemplar com atores. Mas a melhor maneira, talvez, de apreciar o talento de Cukor é assistir não aos filmes famosos e premiados, como Núpcias de Escândalo ou My Fair Lady, mas aos mais obscuros e esquecidos, que estão bem representados na mostra.

Um dos mitos sobre Cukor é que ele era excepcional como diretor de mulheres, um ideia que pode ter saído do conhecimento comum em Hollywood de que ele era gay. Apesar de ser verdade que atrizes com frequência floresciam sob a sua direção, ele era igualmente hábil com atores.

Quando eu o entrevistei, em 1981, pouco antes do lançamento de seu último filme, Ricas e Famosas, Cukor zombou do rótulo e disse: "Também dirigi Jack Barrymore, Ronald Colman e James Stewart, entre outros".

Um dos melhores de seus filmes menos conhecidos é Demônio de Mulher. De 1954, é estrelado por Judy Holliday, que havia ganho um Oscar com direção de Cukor em Nascida Ontem (1950). Mas o filme também marcou a estreia na tela de Jack Lemmon que tem uma performance. A premissa da obra era muito à frente de seu tempo, Holliday faz Gladys Glover, uma mulher determinada a ficar famosa. Uma precursora de várias Hiltons e Kardashians. Embora o final condescendente - Gladys renuncia aos holofotes pelas benesses domésticas - seja muito anos 50, o resto do filme faz incursão arguta na adoração americana por celebridades.

O lado negativo da fama era um tema favorito de Cukor, que ele mostrou em A Família Real da Broadway (sobre clã de atores moldado nos Barrymore) e em Nasce Uma Estrela. Este foi um filme anterior ao Código Hays, que definia o que era "moralmente aceitável" no cinema, razão porque tinha uma carga sexual que ficou ausente em adaptações posteriores da história, que oferece observações ácidas sobre Hollywood. Trabalho comprova ainda a habilidade do diretor para trazer material adulto para a tela durante uma era puritana.

Ao longo das décadas, muitos filmes de Cukor trataram do show biz. Jogadora Infernal (1960) é sobre uma trupe de teatro mambembe excursionando pelo Velho Oeste, enfrentando índios e bandidos, credores e a audiência cada vez menor. E a habilidade de Cukor com atores se evidencia novamente em seu trabalho com Anthony Quinn como o líder desesperado da companhia de teatro. Quinn era escalado mais frequentemente como um personagem macho e atrevido, como no papel título de Zorba, o Grego. Em Jogadora, ele é um homem inseguro e Cukor consegue dele uma de suas interpretações mais ternas e vulneráveis.

Uma das gemas da mostra é o último filme de Cukor, Amor Entre Ruínas. Ele foi feito para a televisão em 1975, e ganhou Emmys para Cukor, o escritor James Costigan e seus astros, Katharine Hepburn e Laurence Olivier.

Esses filmes esquecidos salientam o talento artístico de um diretor soberbo cujo conhecimento desapareceu junto com os intérpretes incomparáveis, elegantes, que floresceram no universo de Cukor. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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