Um elefante no caos

Entre pontos fortes da peça estão requinte no acabamento, cuidado visual e direção hábil

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h16

Em O Desaparecimento do Elefante há uma sequência em homenagem ao romance Anna Karenina, de Leon Tolstoi, a partir de imagens do filme inglês com a atriz Keira Knightley. O lance criativo do cineasta Joe Wright foi colocar o teatro dentro do cinema e vice-versa em um jogo de alternâncias visuais em que ambas as artes não entram em disputa. Ao contrário, elas se engrandecem mutuamente, sobretudo por terem como apoio a obra poderosa de Tolstoi.

No espetáculo de Monique Gardenberg e Michele Matalon uma terceira direção deve ser creditada às cenógrafas Daniela Thomas e Camila Schmidt, que trazem o filme para dentro do teatro. É um trabalho sofisticado, tecnicamente engenhoso que amplia a representação. O ponto vulnerável está no texto de Haruki Murakami, escritor nipo-americano em evidência. A referência ao seu lado norte-americano importa. Não se espere um artista no universo cultural do Oriente; mas um criador assumidamente marcado pelo Ocidente. O que não é um defeito. Ele se decidiu pelos Estados Unidos, onde reside. O problema é que embora tenha livros de prestígio, desta vez fica a dever aos ocidentais que o influenciaram. Autores voltados para a solidão, desencontros amorosos e o caos nas relações cotidianas.

Os personagens de Murakami são um artista gráfico desempregado que recebe telefonemas insólitos; o funcionário da grande empresa afundado no tédio de responder a queixas de clientes; a mulher aborrecida com o casamento e influenciada pelo enredo de Anna Karenina; o casalzinho meio pilantra e um tanto desorientado que decide assaltar uma lanchonete (e a razão não é dinheiro) e por fim a surreal narrativa do homem que viu um elefante desaparecer.

É possível se intuir o potencial metafórico e poético do último episódio, mas ele se dilui sem transcendência. Tantos fragmentos de crise existencial podem ser contados como drama ou comédia e Murakami em seu livro de contos The Elephant Vanishes escolheu o absurdo cômico como pano de fundo dos acontecimentos. Alguns são realmente divertidos, mas por mérito do elenco e da direção. Falta ao conjunto um grão de agressividade ou desalento de Tennessee Williams, Scott Fitzgerald ou Paul Auster de A Trilogia de Nova York. O suporte da montagem aparece no requinte do acabamento, o cuidado visual e a habilidade da direção em criar climas que estão além da escrita, o que é visível nos desempenhos, sobretudo os masculinos, como o de Kiko Mascarenhas em um solo aplaudido em cena aberta, e nas composições de tipos excêntricos de Caco Ciocler. Rafael Primot e André Frateschi tiram proveito de intervenções mais curtas.

O elenco feminino tem momentos fortes com Maria Luiza Mendonça na transição da dona de casa para Anna Karenina, Marjorie Estiano ao encarnar a garota fantasiada de samurai e Fernanda de Freitas como a jovem que viu o gato desaparecido. As imagens, seja fotografia, cinema ou efeitos de luz de Maneco Quinderé, melhoram a literatura original.

Murakami, autor com uma biografia que configura certa persona entre o misterioso e alguma pose (e que é melhor em outros romances como Norwegian Wood) explica-se de modo interessante: "Muitas pessoas dizem que não sabem o que sentem quando terminam um livro meu. Porque as histórias são sombrias, complicadas ou estranhas. Mas enquanto estavam lendo, mergulhavam no meu mundo, e eram felizes". Discurso habilidoso de quem pretende adivinhar o leitor. O efeito de O Desaparecimento do Elefante como é mostrado no palco deve mais à imaginação de Monique Gardenberg e Michele Matalon, Daniela Thomas e equipe. Elas suavizam pela estética duas contundentes afirmações. Uma, de Tolstoi em Anna Karenina, é famosa: "Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira". A outra, a nossa conhecida: "A dor é inevitável. O sofrimento é opcional". Entre tais pensamentos tensos, o espetáculo termina com Raul Seixas cantando com irreverência e melancolia o viver com a maluquês misturada com lucidez.

Crítica: Jefferson Del Rios

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