Jerry Schatzberg/Divulgação
Jerry Schatzberg/Divulgação

Um Dylan em transição e sob holofotes

O filme 'Don't Look Back', que passa hoje na TV Cultura, retrata o início da fase roqueira do cantor

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2011 | 00h00

Em 1965 e 1966, o lendário D.A. Pennebaker documentou duas turnês de Bob Dylan na Inglaterra, capturando a essência do cantor durante a encruzilhada estilística que o levou do folk ao rock. Não fosse a censura do próprio Dylan, Don"t Look Back e Eat the Document formariam uma obra-prima de duas partes sobre uma das guinadas mais polêmicas da história da música. Mas o cantor não aprovou a segunda parte e resolveu editá-la sozinho, a preço de resultados experimentais que relegaram a fita aos porões de uma emissora americana depois de uma só transmissão, nos anos 70. Eat the Document, que traz Dylan em conversa com John Lennon e tocando com Johnny Cash, foi mostrado em exposições sobre Dylan na última década. Alguns trechos estão disponíveis no YouTube e circulam pela blogosfera, mas resta aos fãs, ou a Martin Scorsese, que usou partes do filme em seu extenso No Direction Home, imaginarem o que teria acontecido se Dylan tivesse deixado a edição para quem mais entendia do assunto.

Mesmo assim, o trabalho de Pennebaker permanece um clássico, o primeiro documentário musical de uma filmografia que tem Jimi Plays Monterrey (Hendrix), Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (Bowie) e 101 (Depeche Mode). O filme será transmitido hoje pela TV Cultura, às 23h30, na estreia da temporada 2011 do Cultura Documentários, cuja programação traz retratos de Clint Eastwood, Frank Gehry e a rede de TV Al Jazeera, todos sob curadoria de Amir Labaki, criador do festival É Tudo Verdade.

Don"t Look Back ganhou reedição de luxo, com um documentário sobre o próprio documentário, em 2007. A primeira cena é uma brilhante precursora dos videoclipes. Ao som de Subterranean Homesick Blues, uma trilha para o assédio de fãs e imprensa durante sua chegada a Londres, Dylan exibe uma série de cartazes com a letra da música, enquanto o poeta Allan Ginsberg faz uma ponta ao fundo. Em seguida, de supetão, uma coletiva de imprensa sabatina e esmiúça o franzino cantor como uma ameba sob lentes microscópicas. Reconstruída no longa Eu Não Estou Lá, de Todd Haynes, a cena retrata o cinismo em que o cantor, jovem e ainda não habituado à condição de messias, era forçado a se abrigar ao se deparar com as enxurradas de perguntas sobre a origem de sua música e o sentido do universo.

Nos bastidores da turnê, confusões em hotéis com a cáfila de tietes, músicos e intelectuais que seguiam Dylan. Há um desconforto sutil na relação de Dylan com a cantora Joan Baez, um romance que já dava seus últimos suspiros embora Baez o estivesse acompanhando, e que mesmo assim, gerou graciosos duetos improvisados, com canções de Dylan e Hank Williams, em camarins e quartos de hotéis. A música entra e sai de cena, em curtos takes de Dylan que sugerem que só o palco trazia conforto. Isso é reafirmado pela câmera solta de Pennebaker, que se aproxima do grupo sem se preocupar com luz, foco ou enquadramento, o que resulta em formas abstratas que contribuem à desorientação.

No entanto, o olhar de Pennebaker é completo. Há um grupo de tietes que se mostram ofendidas com o novo disco, um casal milionário que convida Dylan para um veraneio. E na melhor de todas as cenas, uma negociação tensa e impecavelmente editada, em que Albert Grossman, manager de Dylan, troca telefonemas com a BBC para aumentar o cachê de seu protegido.

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