Um dossiê quase forense da 2ª guerra

Richard Evans articula diversas possibilidades interpretativas para analisar o nazismo pensando no grande público

Elias Thomé Saliba, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

Em 1998, no seu livro Denying the Holocaust, a historiadora Deborah Lipstadt acusou David Irving de distorcer e manipular provas documentais para negar o Holocausto e isentar Hitler. Irving entrou com um processo por difamação contra Deborah e a Penguin num contencioso que se estendeu por quase dois anos. Como havia a necessidade de um exame independente na documentação alemã do período nazista, convocaram o historiador britânico Richard Evans o qual, depois de um trabalho de mais de dois anos, acabou por produzir provas periciais que comprovaram as distorções de Irving.

É deste historiador de Cambridge A Chegada do Terceiro Reich, o primeiro dos três volumes que fornecem uma visão ampla da Alemanha nazista para o público em geral. Até hoje, a mais conhecida obra de síntese da história da Alemanha no período nazista é o clássico Ascensão e Queda do 3º. Reich, (publicado em 1960), do jornalista americano William Shirer. Meio século depois, com a liberação de novos arquivos que resultaram numa autêntica avalanche de novas pesquisas e publicações, a compreensão do tema se alterou radicalmente. A obra de Schirer concentrava-se na história política, na diplomacia e nas questões militares. Já Evans aborda a economia, a sociedade, a política racial, a polícia e a justiça, a literatura, a cultura e as artes.

Neste primeiro volume, Evans demonstra rara capacidade em produzir um mix balanceado de relato narrativo com abordagens mais analíticas que tornam o texto bem mais saboroso para o leitor. Como uma nação avançada e culta como a Alemanha pode ceder, tão rápida e facilmente, à força brutal do nacional-socialismo? Esta questão já foi abordada muitas vezes e, quase sempre, com aquele vício de todo historiador em fazer parecer que tudo foi inevitável. Longe desta tentação retrospectiva, Evans mantém seu estilo imparcial, quase forense, inventariando todas as peças do processo histórico: do ardor artístico das óperas de Wagner ao ribombar dos canhões Krupp na 1ª. Guerra Mundial.

"Os alemães nunca teriam êxito em fazer uma revolução porque quando chegassem às estações ferroviárias para tomá-las de assalto, entrariam na fila para comprar os bilhetes..." A brincadeira, atribuída a Lênin, revelava apenas o lado pitoresco das dezenas de mitos difundidos sobre o caráter alemão. Evans desmancha alguns destes mitos: como aquele que diziam que os alemães sempre rejeitaram a democracia e os direitos humanos, rebaixaram-se diante de líderes fortes, ironizavam o conceito de cidadania ativa. Outros mitos enfatizaram não a importância da ideologia, mas pelo contrário, a sua pouca importância na cultura política de Weimar: os alemães não tinham interesse nos partidos e desprezavam o "toma-lá-dá-cá" do jogo político. Esta ultima versão tornou-se muito influente - sobretudo porque virou um álibi para a classe média alemã, absolvendo-a da culpa por apoiar o nazismo. Mas mesmo aceitando estas versões simplistas da história (mitos são sempre simplistas) por que a Alemanha não sucumbiu a uma ditadura nazista bem antes de 1933?

Num trânsito constante entre a macro, a micro-história conjuntural e o foco biográfico, Evans conduz o leitor numa viagem triangular, abrindo a possibilidade de escolher onde desembarcar. Por exemplo: o que aconteceu aos 56% dos alemães que tinham votado contra os nazistas nas eleições de março de 1933? A esta pergunta, um raro testemunho da época, Raimund Pretzel, respondeu seco: "o motivo foi o medo: juntar-se aos bandidos e assassinos para evitar ser morto por eles".

Com a figura de Hitler, que se tornou um imã poderoso de tantas teorias conspiratórias e patologias paranoicas, o procedimento de Evans também lembra o de um juiz instruindo um processo. Com impressionante domínio das fontes primárias, o historiador mostra que a única coisa extraordinária em Hitler foi o seu talento como orador empolgante - coisa que o próprio ditador só descobriu, acidentalmente, logo após a Primeira Guerra. Quanto ao resto, ele parece ter sido absolutamente normal em sua vida privada, pouco original em suas ideias e um homem fanático (mas nada excepcional entre os ideólogos de extrema direita) no ódio visceral (sempre politicamente motivado) que devotava aos judeus.

Evans confessa ter se esforçado ao máximo para não usar uma linguagem que trouxesse consigo uma bagagem moral, religiosa ou ética. E, de fato, relembrando sua atuação no caso Irving versus Lipstadt, seu livro se parece com um grande dossiê elaborado por um competente perito no assunto, exigindo do leitor um discernimento muito parecido ao de membro de um júri. Excluindo, é claro, a exigência de um veredicto final - completamente inútil em relação ao passado mas absolutamente indispensável a uma sólida formação ética.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DE TEORIA DA HISTÓRIA NA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS,

DE RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.