"Um Domingo Qualquer", com Al Pacino

Convencido de que o futebol americano destina-se, mesmo, às platéias dos EUA, Oliver Stone cortou dez minutos de Um Domingo Qualquer na versão que circulou no mercado internacional, incluindo o Brasil. Esses dez minutos não estão exatamente de volta na versão do filme que a Warner está lançando em DVD no País, mas parte deles, sim. Um dos atrativos dos lançamento em discos digitais, e não o menor, é sempre a quantidade de extras. Nos lançamentos recentes, as majors americanas limitam-se ao básico - o filme, seleção de cenas e escolha de idiomas, o trailer, se tanto. No caso de Um Domingo Qualquer, a Warner caprichou nos extras.Há boa dose deles - um making of que inclui entrevista do diretor, preparação das jogadas, cenas de testes ou que foram suprimidas na montagem final e muitos clipes, entre eles o da canção-título, Any Given Sunday, performed pelo rapper Jamie Foxx, que também interpreta um dos papéis principais.É um filme exuberante, estilisticamente, o que não quer dizer que seja, também, bom. O diretor Stone é polemista profissional, como sabem os que acompanham sua carreira, desde os filmes sobre o Vietnã (Platoon, Nascido em 4 de Julho) até JFK, a Pergunta Que não Calar, sobre o assassinato do presidente John Kennedy, The Doors, centrado na figura de Jim Morrison, e Nixon, sobre o estadista que selou a paz no Vietnã e chafurdou na lama de Watergate.Stone, é claro, não ia perder a chance de levar a polêmica para o mundo do esporte. Ele parte do princípio, um tanto óbvio, de que um jogo é o espaço simbólico em que se decidem muitas coisas, além do placar final. Interessa-lhe tanto o que ocorre dentro como fora de campo.Na história, Al Pacino faz o treinador veterano de um time em má posição no campeonato. A direção, a torcida, a imprensa, todos o atormentam com cobranças. A estrela do time, um jogador também veterano, sofre uma lesão e fica fora do campeonato. Entra em cena o garoto que só precisa de uma chance para provar que é o melhor. É o personagem de Jamie Foxx. É um individualista. Não une o time e, por isso, é hostilizado pelo treinador, mas ganha o apoio da proprietária arrivista, uma empresária que só pensa em cifras, interpretada por Cameron Diaz.São os personagens e os conflitos que ganham uma estrutura convencional. Stone tem um pensamento, digamos, binário. Trabalha com oposições, que são simplificadas. A iniciativa individual contra o espírito de equipe, isso entre os jogadores. O idealismo profissional, ou um certo romantismo, encarnado pelo treinador, e o espírito mercantil da dona do time.Nada que fuja ao maniqueísmo que é a moeda de troca da produção corrente americana. O individualista vai aprender a ser solidário, o arrivista humaniza-se. Velho, velho, mas encoberto pela parafernália técnica a serviço de uma concepção estilística.Num filme sobre esporte, o diretor não mostra jogada nenhuma, na íntegra. Stone corta e remonta, transformando as cenas num verdadeiro quebra-cabeça. O começo já mostra o que o filme pretende ser - há uma armação de guerra, realçada pela cor e pelo preto-e-branco, que vai além da imagem e ganha apoio no elaborado tratamento sonoro.A exuberância audiovisual é a própria razão de ser do espetáculo. Atinge seu apogeu na cena da partida sob a chuva. Ou seja - a dramaturgia é fraca, mas a técnica é prodigiosa. E isso é Hollywood. Um Domingo Qualquer é obra de um polemista cansado de polêmica. Um Domingo Qualquer. EUA, 1999. Direção de Oliver Stone, com Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid. Warner Home Video, 192 min

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