Um documento histórico sem o ranço do estudo acadêmico

Com letra, música e interpretação de Paulo César Pinheiro, o CD Capoeira de Besouro reúne 14 capoeiras e um samba de roda todos em torno do universo que cerca o personagem Besouro Mangangá, lendário capoeirista baiano. É algo inédito na discografia brasileira em diversos aspectos que lhe conferem o caráter de documento histórico. Mas dinâmico, sem o ranço dos estudos acadêmicos: tem a leveza de um voo de besouro. Não há nada parecido, com esse primor artístico e técnico na parte musical e também visual, com belo encarte de Gringo Cardia, ilustrado com xilogravuras alusivas às rodas de capoeira. Os discos do gênero, em geral são muito precários, mal gravados e zerados em originalidade. Como Mestre Camisa reconhece, é um disco que a capoeira "estava precisando", porque ficou parada no tempo, com os mesmos cantos repetidos, sem se renovar.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

O poeta compôs cada uma das 14 canções sobre diferentes toques da capoeira, sem repetir nenhum, e com situações primorosamente escritas em cada letra, com o de hábito. Essas variantes da capoeira - um misto hipnótico de dança, luta e jogo levado na palma da mão, como versa um dos temas do disco - dão nomes às canções: Toque de Benguela, Jogo de Dentro, Toque de Cavalaria, Jogo de Fora e assim por diante.

A faixa de abertura, Toque de Amazonas, pontua as façanhas de Besouro, saudando suas habilidades: "Cordão-de-Ouro, Beira-Mar/ Ogum, meu guia/ Salve o Besouro Mangangá/ Rei da Bahia." A última se chama simplesmente Samba de Roda, igualmente inspirada no personagem e na própria criação dele, à qual Pinheiro recorre mais uma vez, emprestando o famoso refrão "Quando eu morrer me enterre na Lapinha/ Calça, culote, paletó, almofadinha." Bem-humorada, a letra tem versos como: "Quando eu morrer/ Se eu tiver que ir pro inferno/ O Diabo que se cuide/ Que ele está no meu caderno/ Oi, Camará."

Da mesma leveza é tomada Luciana Rabello, que fez a direção musical da peça Besouro Cordão de Ouro e, além de tocar cavaquinho, produziu o CD. Os arranjos têm instrumentação mínima por músicos máximos, como ela própria e o violonista Maurício Carrilho. Enquanto Celsinho Silva se encarrega do pandeiro, Paulino Dias bate nos atabaques, agogô e ganzá.

Dois bambas da capoeira, Lobisomem e Mestre Camisa foram convidados a tocar duas espécies de berimbau, "instrumento que rege e comanda a roda de capoeira", como diz Camisa. No encarte do CD ele ainda descreve cada um dos toques abordados por Pinheiro. O convite para entrar nessa roda é irresistível.

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