Um diretor, duas visões

Um diretor, duas visões

Entrevista com José Alvarenga Jr. [br]Diretor dos seriados Força-Tarefa e Separação

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2010 | 00h00

/ RIO

A entrevista está apertada entre o horário do almoço e a leitura de texto do seriado Separação, a primeira feita pelo elenco, mas o diretor José Alvarenga Jr. se nega a comer algo - é preciso manter a imagem inabalável do diretor, até mesmo diante da imprensa. "Imagina dar uma entrevista com uma salada grudada no dente - perde totalmente a credibilidade!", brinca ele, que jura não dirigir de terno e gravata como Sam Raimi (Homem-Aranha) porque, afinal, estamos no Rio de Janeiro. "Sou um diretor até relaxado, não ando de terno. Mas acho que tem de ter cuidado. Imagine dirigir uma cena suando?"

Suar foi o que o diretor mais fez nos últimos tempos, ainda que com classe. Para rodar a segunda temporada do seriado Força-Tarefa, que estreia hoje, ele voltou a frequentar as mais obscuras localidades do subúrbio carioca, ao mesmo tempo em que preparava a sitcom Separação, que também estreia nesta semana, na sexta-feira. Com um policial numa ponta e uma comédia na outra ponta da semana, Alvarenga demonstra a versatilidade que levou cerca de 4 milhões de pessoas aos cinemas no ano passado, com as comédias Os Normais 2 (2,2 milhões) e Divã (1,75 milhões) as duas com sua assinatura.

Na primeira temporada de Força-Tarefa os episódios pareciam muito curtos, as histórias eram resolvidas rapidamente. Na segunda temporada, os episódios terão maior duração. Houve um entendimento de que o tempo era insuficiente?

Sim, a gente sacou que era curto demais. Isso ficou claro num grupo de discussão que tivemos (com telespectadores). Conseguimos mais cinco minutos com a Rede Globo, o que fez toda a diferença.

O que muda em 5 minutos?

A gente ganhou mais tensão. Agora, a tensão não é necessariamente feita no diálogo. O estilo de dramaturgia no Brasil é muito em cima do diálogo, que é uma herança do rádio e das novelas - a palavra é muito forte. Com esse tempo mais dilatado, a gente conseguiu trabalhar nos silêncios, no que não é dito, e isso cria a tensão.

E na mesma semana você estreia Separação...

E com a mesma equipe de produção. O bacana é que a gente vai ter dois produtos artísticos diferenciados. Separação é um projeto que foi apresentado há dois anos à Globo. O (filme) Normais 2 mostrou que há uma carência daquele tipo de humor de Os Normais. É um humor que frequenta bem a televisão.

Você dirige policial e comédia, popular e cabeça ao mesmo tempo. Como foi essa escolha, de não seguir uma linha específica de trabalho?

Lá atrás havia uma cobrança, de como se fosse uma falta de prumo artístico. Mas acho que o que liga o meu trabalho todo é a paixão enorme que eu tenho pelo cinema e pelo audiovisual. E essa paixão sempre foi grande, aberta. Sempre procurei ter uma cabeça aberta para descobrir o que cada tipo de filme traz.

Acha que ainda há um certo mau humor com a comédia de grande sucesso?

Acho que sim. Na verdade, isso ainda é fruto de uma cultura na qual se achava que o Brasil seria salvo pelo cinema. Grande parte da crítica, a crítica mais antiga, ainda tem essa visão, de que o cinema tem de reproduzir a cara de um país, e que será capaz de mudar um pouco a maneira como as pessoas veem a gente. Isso foi muito pertinente numa época, mas mudou. Há uma turma mais jovem dizendo que o Brasil precisa criar bilheterias e parcerias para o cinema não ficar no gueto. Muita gente ainda não percebeu que a classe média de hoje é a classe C de ontem - que ganha de R$ 1 mil a R$ 1,5 mil por mês. Esse salário comporta o cinema, mas não o filme marginal. Parte da crítica não se encaixou nesse novo olhar. Eu me encaixo, porque sou classe média, entendo a classe média e meu trabalho é tipicamente da classe média. Meu trabalho tem essa coragem.

Quem é José Alvarenga Jr.

Diretor de cinema e tv

CV: É um dos diretores mais versáteis da TV. Na Globo, é responsável por grandes sucessos como Os Nomais e A Diarista. Em 2009, levou 4 milhões de pessoas aos cinemas, com Os Normais 2 e A Diarista. Neste ano, dirige ainda a versão para as telas do seriado Cilada.

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