Um diretor de olhos livres

Mostra revisita a obra do cineasta independente Carlos Reichenbach, morto em 2012

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2013 | 02h06

A mostra promovida pela Cinemateca a partir de amanhã homenageia um cineasta muito especial - Carlos Reichenbach, o Carlão, morto ano passado. A retrospectiva é bem completa e inclui do primeiro curta do diretor, Esta Rua Tão Augusta (1966), até o seu último longa-metragem, Falsa Loura (2008). Amplo panorama para a compreensão de um artista diferente, que sempre acreditou no cinema independente, aquele que trafega por fora do esquema industrial.

Carlão, como se sabe, filmou na chamada Boca do Lixo paulistana e lá dirigiu alguns dos seus melhores trabalhos. Em um prodígio de contorcionismo criativo, conseguia colocar reflexões políticas em meio a pornochanchadas, e assim viabilizava suas produções, fazendo um cinema de guerrilha e de contrabando. Quer dizer, entre um nu feminino e outro atravessava a alfândega mental dos produtores escondendo ideias de alta voltagem, que não estavam nos planos nem da turma que investia dinheiro dos filmes, bastante pragmática, nem da censura.

Basta ver filmes como Lilian M: Relatório Confidencial, Amor: Palavra Prostituta ou Sede de Amar para se convencer de como Carlão conseguia unir o cinema autoral às exigências das produções de grande público da época. Carlão era diferente também na formação cinematográfica. Num ambiente às vezes cheio de originalidade porém um tanto tosco, trazia também para a Boca toda a sorte de influências cozinhadas em seu universo de cinéfilo militante - Samuel Fuller, Nicholas Ray, Jean-Luc Godard, e toda uma vertente do cinema japonês que ele cultivava nas antigas salas do bairro da Liberdade. Chegou a ser crítico do diário japonês São Paulo Shinbum, alternando a coluna com amigos, como Jairo Ferreira.

A mostra traz relembra também um Reichenbach mais light, por exemplo naquele que, para muitos, é seu melhor filme - Anjos do Arrabalde, sobre a vida das professoras suburbanas, com Clarisse Abujamra e Bety Faria. Os dramas e as pequenas alegrias das mulheres, contados em tom menor, sensível e delicado. Eis aí um Carlão, àquela época (1986) inesperado.

Mas o filme das professoras revela apenas uma das vertentes fortes da obra de Reichenbach, que dominaria a sua fase final: o fascínio pelo universo feminino, em especial o das mulheres da periferia, das classes trabalhadoras. Alguns dos seus melhores filmes da última fase foram dedicados a elas. Carlão escreveu uma série de projetos, reunidos sob o título geral de ABC - Clube Democrático, do qual apenas dois foram filmados, Garotas do ABC e Falsa Loura, e que visava a um mergulho profundo nesse universo desconhecido pelas classes alta e média.

São filmes que falam das esperanças e dificuldades de moças operárias, que batalham no dia a dia e se divertem no tal Clube Democrático no fim de semana. Namoros, problemas com racismo e com neonazistas do ABC, um flerte com a prostituição, amores desmanchados e desilusões. O cotidiano na fábrica e as conversas sobre namorados no vestiário. Tudo isso em filmes de grande beleza, sobretudo porque Carlão consegue traduzir em linguagem cinematográfica sua visão de mundo, que inclui uma certa dureza mesclada à empatia com as personagens. Nota-se que ama as moças, mas não as trata jamais com pieguice. Garotas do ABC é um belo filme, uma imersão original naquele universo. E Falsa Loura, apesar de alguma irregularidade traz algumas das melhores imagens filmadas pelo diretor.

Mas talvez o melhor Carlão seja mesmo aquele em que seu radicalismo poético, de veio anarquista, se manifesta de maneira mais clara. Por exemplo em Filme Demência (1985), diálogo com Fausto, de Goethe, através da história de um burguês que perde sua fábrica, arruma uma arma e sai a esmo pela cidade em busca de alguma redenção.

Outro exemplo é Alma Corsária, vencedor do Festival de Brasília de 1993. Dois amigos escrevem um livro de poesia a quatro mãos e o lançam num estabelecimento chamado Pastelaria Espiritual. Centro de São Paulo, aquela fauna noturna variada e excêntrica, pela qual Carlão nutria especial ternura. São esses elementos que dão vida a uma história permeada de política, mas com viés libertário. Pela amizade dos rapazes o diretor faz passar uma boa parte da história recente do País, das lutas e desilusões políticas, mescladas aos episódios pessoais. Belos planos e enquadramentos, testemunhas de uma câmera livre e inspirada. Um dos melhores momentos da obra do autor, sem dúvida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.