Um diretor com olhar de pintor

Sokurov é mais conhecido por sua tetralogia sobre o lado maligno do poder - Moloch (sobre Hitler), Taurus (sobre Lenin), O Sol (sobre Hirohito) e agora Fausto -, mas, antes de discutir seus efeitos corrosivos, o cineasta russo dedicou alguns de seus filmes ao registro da vida de suas vítimas, anônimas ou famosas (como Tarkovski), perseguidas por regimes autoritários. O selo Magnus Opus, simultaneamente ao lançamento de Fausto no circuito, coloca no mercado duas caixas com seis títulos sobre alguns desses personagens, pouco vistos até mesmo por cinéfilos: o primeiro volume traz Melancolia de Moscou, Memórias do Meu País e Elegia de Uma Viagem. A segunda caixa reúne O Segundo Círculo, Dolce e Solidão.

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

29 de junho de 2012 | 03h10

No primeiro volume estão alguns dos primeiros exercícios do jovem Sokurov, como Último Dia de Um Verão Chuvoso (1978), curta-metragem que integra o DVD Memórias do Meu País, dividido com o média-metragem Maria (1988). O primeiro foi feito quatro anos após a formatura de Sokurov como historiador, carreira que abandonou após assistir ao filme O Espelho, de Tarkovski, do qual se tornaria um dos melhores amigos (Melancolia de Moscou é um documentário sobre o diretor, que traz sequências filmadas durante o exílio na Itália, quando filmava Nostalgia).

No segundo volume estão algumas das experiências mais radicais do cineasta, destacando-se entre elas O Segundo Círculo (1990), sobre um jovem sem dinheiro que volta à casa paterna para encontrar o pai morto. O tema abordado por Sokurov trouxe muitos problemas ao cineasta - ele trata da burocracia estatal que emperra o enterro de um ex-militar e pressiona o jovem filho, já deprimido com a situação. As autoridades soviéticas não aprovavam a sua falta de sintonia com a política oficial. Tampouco o pessimismo do diretor, expresso no belo documentário Maria.

Nele, Sokurov acompanha o cotidiano de uma líder camponesa, robusta e alegre, num povoado remoto, voltando nove anos depois para filmar a filha, já adulta e com um bebê no colo, como herdeira da desilusão da mãe morta pelo abandono do marido e do regime. Sokurov filma a exibição do documentário original, de 1975, no povoado, com a polícia tentando impedir a projeção.

Numa direção menos política e mais poética, Sokurov realizaria mais tarde, em 2001, Elegia de Uma Viagem, filme experimental em que o principal personagem nunca aparece, quase uma entidade sobrenatural que percorre cidades e o interior do museu Boijmans Van Beuningen, de Roterdã, em busca de uma resposta para a criação. A narração em off confere ao filme um tom onírico. Nele, telas de Brueghel adquirem vida, como em Hubert Robert (também no DVD), curta que o diretor fez sobre o pintor barroco francês, cujas paisagens (repletas de nuvens negras e ruínas) marcaram seu repertório visual.

Maria. Documentário acompanha a rotina de uma camponesa

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