Um dicionário para insultar

Quantas vezes não lhe faltaram palavras para dizer exatamente aquilo que você estava pensando, quando a madame furou a fila do correio, o beleguim, o polícia imbuído de seu todo-poderzinho, perguntou se você não sabia com quem estava falando, o trapincola deu um telefone falso e impossibilitou a cobrança e o jornalista ignaro começou o texto da mais óbvia maneira possível?Por essas e outras que o senhor Altair J. Aranha decidiu-se pôr na rua seu Dicionário Brasileiro de Insultos (Ateliê, 364 págs., R$ 30). Segundo o autor, "cada dia vivido neste país" oferece incontáveis "oportunidades de exercitar a habilidade de rogar pragas, ou, simplesmente, combater o inimigo com uma saraivada de palavras ferinas". Estranho era, acredita, que não houvesse algo especializado no gênero.Diria mais: estranho que não haja ainda uma edição de bolso, que se possa carregar na cinta, ao lado do telefone celular, que com essa coisa de insulto, não há, de regra, hora e local marcado. Porque esse negócio de duelo de cavalheiros, tudo dentro das normas, sei não, parece coisa de gente adamada.É arquiconhecida a citação da atriz Dercy Gonçalves. A velhota nega que diga palavrão. "O que eu uso é a palavra; o povo é que põe o vão", diz, sem muita cerimônia. E como põe. Só de letra agá, que é uma letra besta e sem fala - há quem empregue o adjetivo de inútil -, há 38 maneiras de ofender, enquanto a letra primeira, a, passam das três ou quatro centenas."A escolha dos termos foi a tarefa mais difícil. Se não me impusesse um certo controle, acabaria fazendo uma enciclopéidia", conta o senhor Aranha no prefácio de sua bela obra. "Consultei vários dicionários, inclusive de regionalismos que mostraram a infinita capacidade do brasileiro em criar termos para ofender o próximo. Percebi, ainda, que o insulto, como toda palavra, nasce, cresce e morre - ainda que muito mais depressa."O dicionário começa com um singelo ababelado, uma referência aos desordeiros que tentaram construir a malfadada Torre de Babel. Termina com zuruó, sinônimo de zureta, que, por sua vez, é igual a adoidado, maluco, desatinado, fora de si, estouvado, que pensa e erra muito, doidivanas, imprudente, leviano, doido, demente, desmiolado.Ao apontar algumas das origens dos insultos, o livro mostra que, embora os verbetes ligados a sexo ocupem um espaço considerável, toda palavra, bem empregada, pode virar insulto.Quem já pôs os pés numa cozinha portuguesa sabe bem o que é uma açorda: uma sopa de pão, que, especialmente com mariscos, resulta numa papa inesquecível para quem a come. Pois não é que se pode chamar alguém de açorda, no mesmo sentido de moleirão, fraco, palerma - e, por que não, banana? É muito mais fino, e se o sujeito for um acrânio, ainda vai ficar se perguntando: "Será que não era elogio?"Graças ao tupi, nosso vocabulário de insultos não se limita ao aprendido com os colonizadores. Em vez de anta, pode-se usar o acuré; em vez do feio e horrendo, o abaité; em vez do maníaco, o abaçaí (figura mitológica, sua função era perseguir as pessoas e deixá-las todas enlouquecidas).Nomes próprios, como Belchior, viraram uma forma de se defender (atacando, claro, que é sempre melhor) do comerciante que vende produtos de segunda como se novos fosse; bucho, termo originalmente empregado para designar o estômago dos animais, virou mulher feia, caminho também percorrido por um instrumento que mudou o jeito de se fazer a guerra: o canhão.O dicionário dos insultos vem completar o trabalho de Horácio de Almeida, Dicionário de Termos Eróticos e Afins (Civilização Brasileira). A depravação estudada por este outro senhor é tanta que, num texto introdutório, é capaz de indicar a conotação sexual de uma singela cantiga de roda: "O cravo brigou com a rosa,/ Embaixo de uma sacada./ O cravo ficou ferido/ e a rosa despedaçada." Mas essa já é outra questão, que pode ser ainda mais esclarecida com o Dictionary of Sex, da editora inglesa Wordsworth.Ah, e para que o senhor Aranha não termine sem receber nenhum insulto, merecido ou não, pouco importa, aqui vai o significado de aracnídio, segundo seu próprio trabalho: "Da família das aranhas e escorpiões. Indivíduo venenoso. ´Ele não se cansa de provar que é um aracnídio.´"

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