Um diálogo onde não há espaço para conversa

Uma Garrafa no Mar de Gaza mescla realismo e romance para tratar dos conflitos entre palestinos e israelenses

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h12

Thierry Binist toma a metáfora ao pé da letra para tratar da guerra entre israelenses e palestinos. Costuma-se dizer que uma garrafa com uma mensagem lançada ao mar tem destino incerto. A que dá título a esse filme - Uma Garrafa no Mar de Gaza - chega ao seu destinatário ideal. Ela é jogada à água por Tal, uma garota francesa, judia, habitante de Jerusalém. A garrafa, com a mensagem, e um endereço de e-mail, é encontrada por um jovem palestino de Gaza, que resolve estabelecer contato com a missivista.

O que importa, no caso, é que se estabelece um diálogo entre pessoas que não teriam qualquer outra chance de se comunicar. E, mais, que por suas origens, nem deveriam tentar entender um ao outro. Naim, palestino, e Tal, judia, teriam, segundo a tradição, de se odiarem. E, no entanto...

O que se pode dizer é que Uma Garrafa no Mar de Gaza segue a linha de filmes como a do recente O Filho do Outro, de Romain Lévy. Neste, usa-se o expediente de uma troca de bebês para discutir o que existe de intrinsecamente cultural na formação da identidade, suplantando amplamente a genética. Agora, é a garrafa lançada ao mar que, ao acaso das ondas, dá início ao diálogo improvável entre seres de sexos opostos.

Claro que há um tanto de romantismo na maneira como a história é conduzida. É preciso mesmo uma dose de tolerância com a narrativa para que ela faça sentido. Mas também se deve dizer que o diretor não se vale de facilidades na aproximação entre Tal e Naim. Ela é áspera, problemática, perigosa - da mesma forma como se dá o relacionamento entre seus respectivos povos. Tampouco propõe um final feliz e artificial, desses que colocam em segundo plano todos os problemas antes expostos (afinal, a última impressão é a que fica). Não. O desfecho é aberto e, ele mesmo, problemático.

No entanto, existe a nota fácil que consiste de fazer da mera aquisição do idioma francês signo de distinção e civilidade. Como se Naim escapasse à sua condição pelo simples fato de frequentar um círculo francês e aprender a língua e a cultura do país. Nesse ponto existe um subtexto um tanto incômodo do filme, e que remete à nostalgia francesa dos tempos coloniais e à ilusão de que estaria levando a civilização aos povos dominados. Basta lembrar da Argélia, por exemplo...

Enfim, é uma nota desnecessariamente dissonante num filme bonito, humanista e bem interpretado. Seu pecado maior seria a ausência de ponto de vista sobre o conflito. Como se essa questão se resolvesse apenas pela boa vontade e isenção recíprocas. Nesse ponto, é um tanto ingênuo.

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