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Um dia vou pescar no Tietê

Desde que entrei em jornal, em 1957, sigo uma reportagem recorrente, a despoluição do rio

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 02h00

Para José de Souza Martins e German Lorca

Há na mídia assuntos periódicos, constantes nas pautas como presentes e frutas de Natal; material escolar em fevereiro; ovos de chocolate na Páscoa; flores no Finados; bacalhau na Semana Santa, fantasias no carnaval (certa época, um tema era o lança-perfume, mas o Jânio Quadros estragou a festa). Desde que entrei em jornal, em 1957, sigo uma reportagem recorrente, repetitiva, a despoluição do Rio Tietê. Volta e meia ela agita, brigam os ambientalistas, os burocratas inertes e os políticos ávidos por propinas. A limpeza do Tietê se eterniza, assim como se adia a abertura da estação do metrô Oscar Freire, já apelidada pelo povo de “estação virtual.”

O rio continua a correr grosso, viscoso. Triste cartão de visita. Passar pelas avenidas marginais devia nos valer uma taxa de insalubridade, a ser acrescentada a nossas minguadas aposentadorias. Esta abertura me veio a propósito de uma deliciosa cançonetinha que me foi enviada por Hélio Ziskind. Se você conhece o Hélio está bem, sabe do que falo, o talento que ele tem. Se não conhece, é pena, principalmente para seus filhos e netos.

Um dos formadores do Grupo Rumo, ícone da “vanguarda paulista” nos anos 80, Hélio passou pela TV Cultura de São Paulo produzindo, entre mil coisas, os programas infantis Glub Glub, X-Tudo, Lá Vem História e Rá-Tim-Bum. Um prêmio Sharp de Música de melhor disco infantil e melhor canção por A Noite no Castelo, em 1987 e outro em 1995 com a Sono de Gibi, melhor canção infantil. Em 1997, lançou seu primeiro disco solo, Meu Pé, Meu Querido Pé, pela MCD. Consultor Pedagógico do programa Castelo Rá-Tim-Bum. Ah, as trilhas sonoras do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, são dele.

Essas são mínimas coisas entre as centenas que sei do Hélio, de quem me aproximei quando vi o musical O Gigante na Floresta criado por ele, que narra a história verídica do Jequitibá de Carangola, Minas Gerais, uma árvore histórica de 1.500 anos, 54 metros de altura e 13 de largura, que foi vítima de um incêndio criminoso. Belíssimo tema. Ora, tínhamos tudo a ver um com outro, tendo eu escrito Não Verás País Nenhum e O Manifesto Verde, com temas ambientais. Hélio e eu frequentamos um a casa do outro, afinal ele é meu concunhado, ainda que cunhado não seja parente. 

Adoro ouvir as conversas dele que vão de bactérias à física quântica, das propriedades dermatológicas do óleo de abacate à ficção científica e computação. A partir de março, no primeiro domingo do mês, todos poderão rever na Pinacoteca o Pinacanção: Uma História Cantada, desvendando o mundo da pintura, que mexe com a garotada.

Voltando ao abandonado infame rio. Dia desses, recebi o vídeo Utopia do Tietê, que adorei pela singeleza, humor, pela utopia e otimismo. Tomara as minhas distopias ambientais não se realizem, mas gostaria de viver a do Hélio. Ainda iremos para as margens do rio? Vejam só o que Hélio canta:

Um dia vai ter peixe no Tietê

um dia eu vou poder ir lá pescar 

Eu vou chegar

pedalando a bicicleta

deito na grama 

na beira do rio

Se der jogo

um futebol 

dou uma nadadinha

me seco no sol 

À tardinha vem peixe na beira do rio 

Fico pescando, olhando o céu

e a cidade se acender 

Eu pego um barco-bar vou 

navegando pelo rio 

Passo por baixo

da ponte do Limão

vou tomando meu suquinho

cantando uma canção

abacaxi (sh sh)

com hortelã (sh sh)

Tietê até’manhã

Um dia vai ter peixe no Tietê 

um dia eu vou poder ir lá pescar 

Sábado à tarde, na marginal

o rio vai trazer o meu jantar.

Um presente para a cidade na berlinda. Vale tentar acesso pelo link: https://youtu.be/XKB1z4qnoME

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