Um dia, um gato chamado Ulisses

Felino é essencial no road movie Inside Llewin Davis, dos irmãos Coen, que fala da cena musical de NY, em 1961

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2013 | 02h09

Foi a coletiva mais concorrida, a mais disputada do 66.º Festival de Cannes, até agora. Os irmãos Coen conseguiram, de novo. Ethan e Joel estão mostrando aqui seu novo filme, Inside Llewin Davis, sobre a cena musical de Nova York, em 1961, quando as folk songs haviam virado fórmula. Foi neste universo que surgiu um certo Bob Dylan, mas o filme não é sobre ele. Para captar o clima da época, os Coens criam um personagem fictício - Llewin Davis -, que é a soma de vários outros que surgiram na época.

Pode ser que o culto aos Coens seja exagerado, mas em Cannes eles são reis. O público ria alucinadamente na sessão de imprensa de Inside. Nem se dando conta de que a boçalização - a ridicularização - dos personagens virou um recurso fácil que Ethan e Joel repetem, de filme para filme. O efeito no público é imediato e a massa se sente superior aos personagens. Logo de cara há um incidente envolvendo um gato. Na verdade, trata-se - o que ocorre com o gato - de um típico clichê coeniano - e o publico ri, mais uma vez. O gato é essencial, a chave de Inside Llewin Davis? O próprio Joel admitiu na entrevista. Para evitar que o filme ficasse só na recriação da atmosfera, e para que ninguém pudesse dizer que não tem história, Ethan, como sempre o roteirista, criou o tal gato. E, posto que se trata de um road movie, não é mera coincidência que ele se chame... Ulisses.

Não é de hoje que o fantasma de Homero assombra os Coens - basta lembrar-se de E Aí, Irmão, Cade Você? John Ford era chamado de Homero de Hollywood e em seus filmes dos anos 1950 ele recorria a um grupo folclórico chamado The Sons of Pioneers, exatamente do tipo que os Coens, em nome da modernidade - da pós-modernidade deles - agora querem destruir. Como já debocharam do western tradicional na nova versão de Bravura Indômita, o clássico de Henry Hathaway, talvez exista aí uma vontade programática de atingir o grande Ford.

O francês Arnaud Desplechin, que também está na competição, é muito mais respeitoso com o mestre e, em Jimmy P - Psicanálise de Um Índio da Planície, que se passa no Oeste, após a 2.ª Guerra, cita um dos clássicos do diretor nos anos 1940, A Mocidade de Lincoln, com Henry Fonda como o mito fundador da 'América'.

Inside Llewin Davis já surgiu como aposta para a Palma de Ouro - que os Coens já ganharam por Barton Fink, além de três prêmios de direção (por Barton Fink, Fargo e O Homem Que Não Estava Lá). Mais que isso - já tem gente apostando, na imprensa de língua inglesa, que o filme vai para o próximo Oscar e que Oscar Isaac, que faz o personagem título, não só será selecionado como será o vencedor da próxima estatueta de melhor ator. Ele é realmente muito bom, e canta as canções que compôs. T. Bone Burnett, responsável pela trilha, anunciou que um CD será lançado. Se não o Oscar, Isaac poderá ganhar algum prêmio de música, quem sabe?

O festival avança e ontem, fora de concurso, passou o novo Claude Lanzmann, com quase 4 horas de duração. Le Dernier des Injustes trata da controvertida figura do rabino Benjamin Murmelstein, que liderava a comunidade judaica de Viena, controlada por Adolf Eichmann. Murmelstein foi um traidor dos judeus? A Shoah continua sendo um tema inesgotável para Lanzmann, e o festival lhe abriu um espaço considerável. Um filme dessa duração em Cannes diminui muito a possibilidade de os jornalistas e o público assistirem a outros programas. Tem de ser muito bom, e O Último dos Injustos é.

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