Um dia de ribalta no agreste

População de Acari, no Rio Grande do Norte, ri, chora e decifra as tramoias de Shakespeare

Dib Carneiro Neto, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

"Tremi nas bases. Quando vocês cantam e misturam Queen (Bohemian Rhapsody) com Assum Preto, a gente vê a inteligência da montagem, que casa as tramas e guerras da Inglaterra daquele tempo com a realidade nordestina. Se alguma vez eu não tinha entendido o que significa "a arte vai onde o povo está", agora, hoje, aqui, isso está mais claro do que nunca." Segue aos prantos dona Jaécia Bezerra de Brito, professora de "língua pátria", como se intitula, contagiando com sua emoção o público informal do primeiro ensaio ao ar livre do musical de rua Sua Incelença, Ricardo III, no Açude Gargalheiras.

"Em 20 anos de teatro, nunca ouvi depoimento tão sincero e tocante e que resume a essência do que nos move, nós, artistas", rebate o diretor Gabriel Villela aos moradores da vila de Acari, com voz embargada. E olha que de teatro de rua e de Shakespeare ele entende muito. Villela já montou um auto de liberdade em Mossoró, também no Rio Grande do Norte, já encenou o balé Sonho de Uma Noite de Verão em um parque municipal de Belo Horizonte e, top dos tops, fez história com Romeu e Julieta, do Grupo Galpão, viajando o Brasil e o mundo sempre em apresentações a céu aberto. "A arte precisa ser mais sucinta e direta nessa modalidade de teatro de rua, por causa da natural dispersão ao ar livre. Os atores devem o tempo inteiro buscar os olhos do público. Isso exige muito treino e foi o que viemos fazer aqui em Gargalheiras." O processo de criação de Romeu e Julieta, em Morro Vermelho, em Minas, foi bem parecido. "Mas o povo mineiro é mais contemplativo, espia mais e fala menos. Os nordestinos, a julgar pelo que vimos até agora, querem falar tudo o que sentem."

Síntese. A primeira leitura que os Clowns de Shakespeare realizaram de Ricardo III durou três horas e meia. As intrigas políticas e palacianas entre os Lancasters (rei Henrique VI e sua rainha, Margaret) e os Yorks (rei Eduardo IV e seus irmãos) - e que só terão fim quando as duas facções se juntarem para derrotar o tirano sanguinário Ricardo III - tiveram de ser cortadas para menos de uma hora e meia de espetáculo. Essa função dramatúrgica coube a Fernando Yamamoto, um dos fundadores e diretor oficial dos Clowns de Shakespeare. Aqui, além de assinar a sintética adaptação do drama histórico, ele faz as vezes de coordenador de produção e também é um dos assistentes de direção de Gabriel Villela, ao lado de Ivan Andrade. "O resultado é que o grupo tem agora nas mãos uma pérola", diz Ivan. "E, a julgar pela incrível disciplina que eles demonstram nos ensaios, vão saber lapidar essa pérola cada vez mais e mais. Estou vivendo uma mudança de eixo fantástica em minha carreira, pois sou de São Paulo e, como assistente, fico no meio do caminho entre a erudição acadêmica de um Gabriel Villela e toda a riqueza cultural nordestina do grupo Clowns de Shakespeare."

Mas é papel do diretor, depois de tanta comoção, puxar todos de volta para o nível do chão. "Foi lindo e muito forte esse nosso primeiro contato com o público, mas não fiquem tão confiantes, pois teatro de rua é como sabão ou quiabo, escorrega demais. Vamos aproveitar os próximos dias aqui para exercitar essa comunicação direta e popular. E lembrem-se de valorizar o verbo, articular bem as palavras. E, na hora das músicas, se for o caso desafinem, não tem importância, isso não é Broadway."

Shicó do Mamulengo, aderecista local recrutado pela produção, elogia a criatividade do encenador. "Parece que o Gabriel adivinha meu pensamento. Ele tem as mesmas ideias rústicas e artesanais que eu tenho a respeito do acabamento dos adereços e dos figurinos." Um pedaço de arreio de cavalo vai parar na coroa do rei Ricardo, uma parte de um chapéu se transforma em peitoral para o cangaceiro e por aí vai. Panos, rosas, penas de galinha, guardas-chuvas, carroças, cipó, bambu... "Shicó é um artista do nível de Bispo do Rosário", devolve Villela. "Ele costura couro como se fosse seda."

Doçura. "Gabriel tem fama de exigente demais, por isso estávamos muito receosos de como seria sua relação com o grupo", comenta Rafael Telles, produtor executivo. "Mas logo vimos o quanto ele mescla doçura com mão firme." César Ferrario, ator do grupo, comenta o processo de trabalho com o diretor convidado: "Nós temos uma forma coletiva de pensar nossas peças, mas o Gabriel chegou aqui para acessar primeiramente o individual, as potencialidades de cada um." O protagonista Marco França arremata: "Ele redimensionou nosso olhar e deu um ressignificado para nosso coletivo."

O segredo, segundo o aplicado assistente Ivan Andrade, é o talento para a liderança do diretor: "Ele tem a habilidade de saber administrar todas as etapas de uma montagem, não só a artística. Lida com o que é técnico sem esquecer do humano."

Chega o segundo dia em Acari. Hora de começar o novo ensaio. Calor de sol a pino. "Em vez de "Meu reino por um cavalo!", já sei que vou gritar "Meu reino por um ventilador!"", brinca Marco França, referindo-se à fala final do protagonista. O terreno ao lado da vila já está lotado de moradores novamente. Muitos voltam para rever as intrigas e ódios que, no universo nordestino, se traduz em coronelismos e poderes de cabresto. O diretor avisa que a imprensa está presente e que uma reportagem vai resultar dessa visita. A mesma Dona Jaécia, a professora de "língua pátria", tasca a pergunta, que muitos julgavam improvável no inóspito sertão nordestino: "Vai sair no "online" também ou só na edição impressa?" Sinal dos tempos. O fim do mundo não existe mais. O primeiro clown, Dudu Galvão, vem à boca de cena do picadeiro, abre os braços e reconvoca deuses e mortais: "A partir deste momento, nossa história será contada. Imaginai!"

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