Um crítico das civilizações

Perfil[br][br]Prêmio Nobel de 2008, o francês J.M.G. Le Clézio expõe em seus textos os maltratados pelo destino e a repulsa moral do colonialismo; para ele, a raiz do mal encontra-se a duas gerações distante da sua

Maya Jaggi, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2010 | 00h00

J.M.G. Le Clézio, que em 2008 se tornou o primeiro autor em 23 anos a receber o prêmio Nobel de Literatura por uma obra em francês, esperava lançar sua carreira com histórias detetivescas escritas em inglês. Depois de aprender o idioma na Universidade Bristol no fim dos anos 1950, ele escrevia enquanto lecionava numa escola em Bath e carregava mobília numa loja de velharias em Londres. Mas suas histórias foram sempre rejeitadas pelos editores britânicos. "Foi então que decidi escrever em francês", diz ele.

Em Nice, sua terra natal, escrevia "nos fundos dos cafés, enquanto atendia às mesas", nos meses antes de sua convocação para a Argélia. Seu romance O Interrogatório (1963), que ele define como "quase uma piada", tratava de um desertor passando o tempo num lar temporário na Riviera francesa, sem saber se desertou do exército ou fugiu de um hospício. Suas ameaçadoras descrições do mundano beiram a alucinação. Publicado pela Gallimard quando Le Clézio tinha 23 anos, o livro foi celebrado como obra inaugural comparável a O Estrangeiro, de Camus. Seu autor, de topete loiro e maxilar anguloso, foi considerado o Steve McQueen da literatura francesa - e fotografado por Henri Cartier-Bresson como novo ícone da Margem Esquerda.

Mas Le Clézio, nascido no sul da França com um sobrenome bretão, avós mauricianos, mãe francesa e pai inglês, nunca se identificou com Paris. Agora dotado de dupla cidadania, ao mesmo tempo francês e mauriciano, ele diz: "Sempre senti que minhas origens estão numa cultura miscigenada, principalmente inglesa e francesa, mas também nigeriana, tailandesa, mexicana."

Para o comitê do Nobel, sua obra é uma "crítica das civilizações". Seus primeiros trabalhos de ficção eram formalmente experimentais, sondando estados de medo, crise e loucura em meio a distopias urbanas mecanizadas e desastres ecológicos. Guerra (1970), inspirado no Vietnã, foi criticado por Martin Amis como sendo "um tormento de se ler". Mas seu estilo se tornava mais lírico conforme ele pensava nas viagens que fizera. Sua ficção madura costuma se valer de suas memórias de infância e da genealogia de sua família para traçar os encontros da Europa com outras culturas.

Nós nos encontramos em Paris, no Quartier Latin, onde ele e a mulher, Jemia, possuem um apartamento de cobertura. Le Clézio, que completou 70 anos em abril, concede poucas entrevistas. Passa o tempo em Nice e na costa oeste da Bretanha, mas sente-se em casa nas Ilhas Maurício, no Oceano Índico, onde um ancestral bretão se instalou após a Revolução Francesa. Viveu no México, mas, "quando as coisas ficaram perigosas", especialmente para seus filhos, ele se mudou para o outro lado da fronteira em 1998, e deu aulas de francês na Universidade de Albuquerque até há pouco tempo.

A facilidade de adaptação é, para ele, legado do fato de ser mauriciano: "Todos eles tiveram de partir porque não havia trabalho. Não me sinto limitado à França." Para se estabelecer num novo lugar, "é preciso se livrar de antigos hábitos". "Isso nos traz uma espécie de juventude, o que é muito benéfico para a escrita."

Humanismo. Fundamental em sua trajetória é o romance revolucionário Deserto. Lançado pela primeira vez há 30 anos, o livro foi o ganhador do Grand Prix Paul-Morand da Academia Francesa. A história se passa no Saara Ocidental, no Marrocos e em Marselha, e retrata a derrota dos nômades tuaregs no início do século 20 - os Homens Azuis de túnicas anis que os franceses levaram à submissão. Mas, em narrativas gêmeas que associam implicitamente a invasão colonial e a imigração posterior, um menino que atravessa o Saara numa caravana em 1909 tem como contraponto uma menina sua descendente que mora nas favelas de Tânger e se torna modelo na França. Para o romancista Tahar Ben Jelloun, Le Clézio, é "um humanista preocupado com homens e mulheres maltratados pelo destino e pelos demais seres humanos". "Ele nunca se coloca em primeiro plano."

Deserto foi em parte inspirado nas histórias contadas por Jemia, que nasceu no Marrocos. "Elas me transmitiam a resistência de um povo ao poder colonial, contra a conquista do Marrocos e o mundo moderno", diz. Ele também reaproveitou uma história sobre a resistência ao poder colonial, O Xeque Branco, escrita por ele aos 15 anos após uma viagem ao Marrocos francês feita com o pai. Em Deserto, os nômades travam uma guerra santa contra invasores cristãos cuja verdadeira religião é o dinheiro. "Eles associaram religião e rebelião, enquanto o outro lado apostava mais na racionalidade, na crença no poder de fogo. Quando a França enviou metralhadoras e navios contra pessoas armadas apenas com espingardas, estavam preparando a situação atual, na qual as pessoas querem se libertar de seus antigos senhores. Mas não houve equivalência; houve corrupção da raiva por aqueles que organizam o terrorismo."

Quando visitou o sul do Marrocos na companhia da mulher há 10 anos, ele encontrou amargura. "Havia minas terrestres por toda parte; eles não podiam circular por lá como estavam acostumados. Estar sob um governo espanhol ou marroquino não tinha importância... As pessoas sobrevivem sem remédios, e iluminam suas vidas com poesia, música, banquetes. Quem tem as origens num lugar onde são herdados grandes valores como estes sente uma inevitável necessidade de retornar ao berço."

Refugiados. Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em 1940, dois meses antes da capitulação francesa diante da Alemanha nazista. A mãe dele, Simone, viajou de carro com os dois filhos até a Bretanha. "Mas assim que chegamos, os alemães também chegaram, e nos obrigaram a recuar. Eu tinha muita fome no fim da guerra, implorava comida aos americanos." A guerra ainda é uma obsessão. "O frio, a pobreza e a sensação de que tudo vai se acabar. O que me interessa é a forma com a qual as crianças pequenas e os idosos vivenciam estes momentos." Ele conserva consigo um documento alemão que descreve sua família como "um bando de refugiados". "Compreendi o que é fugir do drama para encontrar abrigo."

Ele retratou a cidade de Nice em tempo de guerra no romance Estrela Errante (1992), com suas narrativas gêmeas sobre duas meninas - uma judia francesa em fuga para Israel e uma palestina no campo de refugiados Nour Shams. "Não se pode contar apenas um lado da história, é preciso contar tudo: os assassinatos cometidos pelos alemães no sul da França e as pessoas morrendo de fome e doença no campo palestino." Por causa da guerra, Le Clézio só conheceu o pai, Raoul, depois de ter completado 8 anos. Nascido nas Ilhas Maurício, Raoul era britânico, graças a uma mudança colonial ocorrida durante as Guerras Napoleônicas. Foi no barco que rumava para a Nigéria em 1948, levando Le Clézio para o encontro com o pai, que o autor começou a escrever - uma produção de romances que, há até pouco tempo, ele pensou ter perdido. "Minha mãe os guardou numa mala. Encontrei tudo."

O pai dele atendia perto de Onitsha, um porto do Rio Níger na terra dos igbos. Le Clézio lembra do lugar como um "paraíso belo e cheio de liberdade". "Ao mesmo tempo, o autoritário Patriarca estava lá, tentando criar seus filhos mal-educados." Os irmãos passaram dois anos longe da escola, "brincando com crianças igbos, falando um pouco do idioma delas e de inglês simplificado, e esquecendo nosso francês". Mas o menino de seu romance Onitsha (1991)também testemunha um grupo de prisioneiros cavando uma piscina para o oficial do distrito enquanto os europeus almoçam. "Fiquei chocado com as cenas cruéis do domínio britânico que vi na Nigéria, mas, naquela idade não é possível sentir o significado político." O romance culmina na guerra de Biafra (1967-70), quando a secessão igbo foi esmagada. Para Le Clézio, o episódio foi um "triste momento". "A guerra foi organizada pelos europeus. As pessoas não estavam morrendo por causa de um antagonismo político ou religioso, e sim por causa do petróleo." Em O Africano (2004), seu livro de memórias, ele registra o desespero do pai diante da guerra, e se esforça para entender o homem em quem ele pensava como um desconhecido, "quase um inimigo", mas que pode afinal ter transmitido ao filho a repulsa moral diante do colonialismo.

Ainda em Nice, aos 10 anos, Le Clézio "nada sabia sobre as regras da escola ou sobre sapatos". "Cresci em uma bolha mauriciana na França... tinha a sensação de não pertencer àquele lugar, mas de ainda viver na cultura francesa. Isso me conferiu este desajeitamento ainda não resolvido." Seus ancestrais pertenciam à plutocracia do açúcar, mas perderam sua propriedade numa disputa familiar e se espalharam, tornando-se juízes ou médicos.

Como descendente de proprietários de escravos, Le Clézio teve moldado o seu ceticismo em relação ao Iluminismo. "Compreendo melhor a contradição entre a civilização idealizada e a moral religiosa na Europa e aquilo que eles faziam aos escravos; a raiz do mal está duas gerações distante de mim. Talvez isso tenha alimentado minha necessidade de lutar contra os abusos da civilização moderna." Ele escapou do recrutamento militar ao ser aprovado na universidade. Com o fim da guerra na Argélia, prestou quatro anos de serviço ao país na Tailândia e no México. Foi expulso da Tailândia, possivelmente por mostrar o "pequeno livro vermelho" de Mao a estudantes ou por denunciar o tráfico sexual de crianças em entrevista concedida a um jornal francês.

No início da década de 1970, ele passou três anos com índios embera e waunana nas florestas de Darién, no Panamá. "Comprei uma canoa motorizada e segui os índios. O Panamá foi um interrogatório de mim mesmo. Eu estava próximo de onde o Ocidente encontrou os índios no século 16. Aquelas pessoas preservaram sua cultura como defesa contra o mundo moderno, conservaram a própria verdade. Quis entender este povo dócil e pacífico. Não os estou idealizando, mas a sociedade deles é muito mais equilibrada do que a de onde venho. Como europeu, não estou certo do valor de minha cultura, sei o que ela fez." A única coisa que o impediu de se instalar no país e cultivar a própria plantação de arroz foi a malária. "Eu não tinha resistência às doenças; precisava de remédios." Ele foi embora precisando "reaprender tudo", e traduziu crônicas maias, convencido da necessidade do "interculturalismo e de uma abordagem mais saudável para a ecologia".

Ele usou o que aprendeu sobre o encontro da Europa com os índios para revisitar as próprias origens. Em seu grande romance Revoluções (2003), a vida de um estudante em Nice, em Londres e no México nas décadas de 1950 e 1960 é misturada à de um ancestral bretão e uma escrava nas Ilhas Maurício do século 19. Seu romance mais recente, Refrão da Fome (2008), volta à geração de sua mãe, aos mauricianos em Paris no período entre as guerras.

Apesar de não acreditar que todas as culturas tenham voz igual, diz que "a situação atual ainda é melhor do que a de quando era criança". Ele se enxerga como "um produto da civilização ocidental, que inventou coisas extraordinariamente belas, e ao mesmo tempo se comportou de maneira intolerável". "Talvez essas obsessões me ceguem." Está trabalhando num romance, Alma Mater, sobre sua família, "por um lado, mercadores de escravos, e por outro, pessoas muito cultas e bondosas". "É uma contradição que ainda não solucionei."

NO BRASIL

Os romances Pawana e Refrão da Fome e o livro de memórias O Africano foram lançados no País pela Cosac Naify (tradução de Leonardo Fróes). Pela Companhia das Letras foram editados A Quarentena (trad. de Maria Lucia Machado) e Peixe Dourado (trad. de Maria Helena Rodrigues)

/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

MAYA JAGGI É CRÍTICA LITERÁRIA DO JORNAL INGLÊS THE GUARDIAN, ONDE PUBLICOU ORIGINALMENTE ESTE ARTIGO

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