Um Cristo de camiseta em "Godspell"

Aberta a nova temporada de musicais em São Paulo, sob a chancela do ator, diretor, autor e produtor Miguel Falabella. Godspell e South American Way estréiam, respectivamente, nesta quarta-feira e no dia 19, em São Paulo. Confirmam a consolidação de um gênero que voltou com força e bossa no Brasil. Os dois têm direção musical de Josimar Carneiro e figurinos de Cláudio Tovar. Godspell mantém o roteiro original de Stephen Schwartz (estreou no La Mama, em 1965), criado na esteira da rebeldia e da contracultura daquela década. Já o premiado South American Way - sucesso na temporada carioca, ano passado - apresenta a vida da Pequena Notável, Carmen Miranda, em roteiro escrito por Falabella e Maria Carmem Barbosa. Ganhou quatro prêmios Shell (atriz para Stella Miranda, figurino, direção musical e texto) e dois Governador do Estado (atriz e figurinos). Godspell, dirigido e produzido por Miguel Falabella, faz sua estréia nacional. O musical foi montado no Brasil na década de 70, por Antônio Fagundes. Ícone da arte pop, tematiza a trajetória de Jesus Cristo, segundo o Evangelho de São Mateus, com suas parábolas bastante conhecidas, como a do bom samaritano e a do filho pródigo. Originalmente, Schwartz concebeu um não musical. As canções foram incorporadas em 1971, quando o espetáculo estreou na off-Broadway, e depois na Broadway, em 1976. Foi apresentado no mundo inteiro e, mais recentemente, em 2000, de volta à Broadway. "Não se trata de uma recriação dos anos hippies de 30 anos atrás", disse Falabella, em entrevista por telefone, de Nova Jerusalém, em Pernambuco, onde ensaiava a Paixão de Cristo, no papel de Herodes. "Retraduzi tudo. Num país com 23 milhões de miseráveis, a manifestação divina deveria aparecer como ação de voluntariado e não só como louvação a Deus." Godspell teve uma adaptação para o cinema, em 1973, e Day by Day é uma das canções do repertório que ficaram mundialmente conhecidas. "É importante passar uma mensagem de solidariedade considerando-se o momento atual, mas sem pieguismos", diz o diretor. Segundo Falabella, o musical tem uma urgência temática, que é a busca pela espiritualidade, pelo autoconhecimento e pela alegria. Embora esses aspectos tenham forte ligação com a entrada do novo milênio, ele destaca que Godspell também deve ser ressaltado pela força do gênero. "O Brasil tem uma longa tradição de musicais. Basta lembrar o que foram os grandes musicais da Praça Tiradentes, no Rio, do Cassino da Urca, e mesmo das chanchadas do cinema nacional." Ele acrescenta: "Essa seria uma das grandes alegrias da minha vida: deixar um bando de bons musicais, com canções lindas. Uma forma de envelhecer bem, não é?"Godspell conta com 12 atores em cena, que tocam, dançam, cantam e atuam. São cerca de cem figurinos criados por Cláudio Tovar, que também assina a cenografia. Cristo veste camiseta e calça brancas, com suspensório. À cabeça, um chapéu branco. "É um Cristo bem simples, vestindo o branco para contrastar com o cenário, que é bastante colorido", diz Tovar, grande conhecedor do gênero musical no Brasil, a partir dos anos 70. "Figurino para musical tem de servir à cena. Não tem nada a ver com moda, tem a ver com ritmo. É uma questão de cálculo, acima de tudo." O cenário esbanja colorido, denotando um espírito circense com camarins aparentes para a troca das roupas e dos acessórios. As músicas são cantadas ao vivo, sobre playback. O responsável pelos arranjos e pela direção musical é o músico violonista e arranjador Josimar Carneiro, do grupo de choro Água de Moringa, do Rio de Janeiro. "Nós nos conhecemos, Falabella e eu, por indicação de um grande amigo em comum", conta o músico de 35 anos e, segundo Falabella, uma grande revelação. Carneiro diz que sua formação é meio botequim e meio academia (formou-se em música na Uni-Rio e estudou com o maestro Guerra Peixe). Sua experiência com teatro musical data de 1987, quando começou a trabalhar com Tim Rescala. "Estou acostumado a produzir nos 44 minutos do segundo tempo", brinca. Ele conta que passou pelo grande teste com Miguel Falabella no início dos ensaios de South American Way, quando o diretor ordenou que o músico criasse a introdução para o dia seguinte. "Passei a madrugada trabalhando e, no dia seguinte, cheguei com a introdução pronta. Falabella não acreditou", conta o músico. "Falabella é exigente e não gosta de falar duas vezes a mesma coisa. Como também não gosto de ouvir duas vezes a mesma coisa, acho que nosso timezinho vai durar muito tempo." Falabella garante que o trio vai continuar trabalhando junto. "Tenho muita vontade de escrever um musical sobre o Primeiro Império no Brasil. A safadeza começou lá", dispara. A atriz Dulcina de Moraes, na linha das grandes divas brasileiras dos palcos, também faz parte de seus planos. O loiro workaholic acaba de escrever um livro para crianças, O Eleito, sobre um garoto paulistano, que embarca numa viagem encantada pela mitologia brasileira. O espetáculo Os Monólogos da Vagina, sob sua direção, voltou ao cartaz em São Paulo. Falabella está dirigindo o ator Ney Latorraca em Capitanias Hereditárias, com estréia prevista para agosto. Também assina a sitcom Batalha de Arroz num Ringue para Dois, com Claudia Jimenez, previsto para estrear na Globo em junho, no lugar de Sai de Baixo. Serviço Godspell. Adaptação e direção Miguel Falabella. Duração: 2 horas. Quinta, às 21 horas; sexta, às 21h30; sábado, às 19h30 e 22h30; domingo, às 19 horas. De R$ 15,00 a R$ 80,00. Teatro Jardel Filho. Avenida Brigadeiro Luís Antonio, 884, tel. 3107-3364. Até 8/9. Patrocínio: Oracle South American Way - Carmen Miranda, O Musical. De Miguel Falabella e Maria Carmen Barbosa. Direção Miguel Falabella. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 35,00 a R$ 80,00. Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2.823, tel. 3082-2409 e 3083-4475. Patrocínio: Petroquisa

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