Um craque da reportagem

Mesmo feitos para o dia a dia, textos do repórter Bojunga não têm prazo de validade

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2017 | 02h00

Há livros, disse o Millôr Fernandes, que você, quando larga, não consegue mais pegar. Mas há também aqueles que, embora cativantes, você, por circunstâncias, precisa pôr de lado, com o risco de nunca mais retomar. Conheço bem esse enredo infeliz, reprisado a cada vez que me envolvo num projeto absorvente, dos tais que exigem aplicação monogâmica. Sou calejado na tristeza de ter de abandonar leitura boa para concentrar-me em livros não raro mal escritos, mas portadores de substância útil para um trabalho em andamento. 

A conversa vem ao fato de que, meses atrás, recebi um exemplar de Roquette-Pinto - O Corpo a Corpo Com o Brasil, de Claudio Bojunga, em caprichada edição, com capa dura, da Casa da Palavra. Nele mergulhei, imediata e gulosamente - até que, ali pela página 80, me vi forçado a trocar a leitura prazerosa pela aridez de prosas bem desengonçadas. 

Daí a alegria com que finalmente pude retomar, dessa vez para não mais largar, o livro que Claudio Bojunga dedicou a Edgard Roquette-Pinto (1884-1954), extraordinária figura, hoje um tanto esquecida, que mesmo uma fartura de rótulos - médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo, ensaísta, pai da radiodifusão no Brasil - não dá conta de abarcar. Era mais que tempo de avivar na memória do País a lembrança daquele que foi, no dizer de Gilberto Freyre, “o maior mestre da antropologia que já teve o Brasil”. Ou, na avaliação de José Guilherme Merquior, nosso “maior demolidor do mito racista”. Um desses homens, escreveu Carlos Drummond de Andrade, “que nos ensinam a ter esperança no homem”.

Mas não há de ser aqui, no espaço desengravatado de uma crônica, que se vai fazer resenha desse livro que Claudio Roquette Bojunga escreveu sobre seu avô materno, obra apaixonada mas nem por isso parcial e louvaminheira, mero livro de neto. Quero falar é do prazer que sinto ao reencontrar o texto sumarento de Bojunga, do qual andava saudoso desde as quase 800 páginas de JK, O Artista do Impossível. Dele sou freguês veterano, desde o início dos anos 70, quando o autor e eu fomos companheiros nos melhores tempos do Jornal da Tarde.

 

Recém-vindo de longa temporada em Paris, Bojunga esteve por um tempo mal aproveitado naquela redação - até que pudesse, numa reportagem sobre a inauguração do Hilton paulistano, mostrar as garras de um craque do new journalism. Sem desfazer de outros colegas, e para ficar apenas na fornada a que pertenço, eu o tenho, ao lado de Guilherme Cunha Pinto, Geraldo Mayrink e Nirlando Beirão, no degrau mais elevado de um panteão particular, exclusivo de jornalistas capazes de acondicionar apuração rigorosa em textos que, por sua feitura fina e seu poder de sedução, logram sobreviver, sem data de validade, à fugaz passagem pelas bancas. Textos, não me canso de repetir, em que o modo de dizer é no mínimo tão interessante quanto aquilo que se está dizendo. 

Na esperança de poder um dia chegar lá, sempre tive um olho no que escreviam o Jovem Gui, o Mayrink, o Nirlando e o Bojunga. Com este, aliás, pude conhecer refinamentos como aquilo que chamarei de coquetel de leitura: a que se faz de dois livros ao mesmo tempo, um iluminando e enriquecendo o outro, de modo a que, ao final, praticamente tenha resultado um terceiro. Sutileza demais, cheguei a pensar quando o Bojunga, entusiasmado, me falava dos frutos da leitura simultânea que fazia então de O Labirinto da Solidão, de Octavio Paz, e O Outono do Patriarca, de García Márquez. Quis tirar a prova - e me rendi para sempre à coquetelaria de meu amigo.

Com Claudio Bojunga, hoje professor na PUC do Rio de Janeiro, eu gostaria de ter aprendido também a saudável esperteza que o levava a antecipar-se aos pauteiros da redação: para que não lhe viessem com pautas chatas ou burocráticas, ele tratava de propor matérias sobre temas e figuras que o fascinavam não apenas como jornalista. No carnaval de 1972, por exemplo, ainda na avenida Presidente Vargas, num tempo em que as escolas de sambas não admitiam estranhos, o carioca Bojunga, não sem muita negociação, deu um jeito de sair na Mangueira, para, em feito inédito, narrar de dentro o desfile. Sem nunca ter relido a reportagem, me lembro ainda de um sutil contraponto, no auge da ditadura militar, entre a avenida festivamente tomada pelo povo e, ao fundo, o Ministério da Guerra com as luzes apagadas.

Curiosamente, o repórter que alguns colegas rotulavam de “francês”, só por sua esmerada formação parisiense, tinha, como poucos, enorme apetite por temas e questões nacionais. Em parceria com o não menos craque Fernando Portela, no Jornal da Tarde, Bojunga revisitou cenário e histórias do cangaço, daí resultado um belo livro, Lampião - O Cangaceiro e o Outro. Num momento em que o Brasil dos militares reivindicava supremacia geopolítica na América do Sul, a mesma dupla palmilhou nossas fronteiras, saindo cada qual de um ponto extremo do território para a certa altura se encontrarem. Também aquela série, Fronteiras - Viagem ao Brasil Desconhecido, resultou em livro. Lembro-me de um terceiro, Viagem à China Aberta, que Bojunga fez sozinho em meados dos anos 70, num país ainda fechado a brasileiros em geral e jornalistas em particular. 

Bem teriam merecido forma menos perecível outras reportagens que ele escreveu para um punhado de publicações pelas quais passou, como efetivo ou colaborador, entre elas o Jornal do Brasil, a Veja e a efêmera porém memorável Goodyear, revista de fábrica de pneus que Geraldo Mayrink converteu em polo do melhor jornalismo. A Claudio Bojunga devemos ainda o texto de um documentário hoje clássico, Os Anos JK, de Silvio Tendler, empreitada cujo foco ele haveria de ampliar e aprofundar na monumental biografia de Juscelino Kubitschek.

 

Mas eis que estou a falar do autor, merecedor disso e de bem mais, quando aqui ao lado me esperam as últimas páginas de seu livro sobre Roquette-Pinto. Vou a ele, não sem antes recomendar a você que faça o mesmo, imediatamente.

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