Um craque chamado Heleno

O ator Rodrigo Santoro recria com precisão a trajetória do mais torto e trágico dos anjos do futebol brasileiro em filme que José Henrique Fonseca dirige no Rio de Janeiro

Ubiratan Brasil / RIO, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

 

A metamorfose começou - primeiro, o corte de cabelo, cuidadosamente modelado e esculpido de gomalina, à moda de Rodolfo Valentino; em seguida, os tornozelos que, graças à dedicação nas cenas de jogo, são tratados com gelo, como fazem os atletas profissionais. Mas é no olhar que a transformação mais impressiona: incisivo, confiante, debochado. É a partir dos olhos que o ator Rodrigo Santoro assume a persona de Heleno de Freitas (1920- 1959), o mais torto dos anjos do futebol brasileiro, ídolo do Botafogo dos anos 40 que morreu sifilítico, incompreendido, louco. Um fascinante personagem cuja trajetória inspira o novo filme que José Henrique Fonseca roda há dez dias no Rio de Janeiro. "Heleno carregava a própria tragédia grega no nome", conta o cineasta, enquanto observa o trabalho de concentração de Santoro.

 

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Na manhã de sexta-feira, em um dos vestiários do estádio do Vasco da Gama, em São Januário, o Estado acompanha com exclusividade a preparação de uma cena. Vestido com a camisa de época do Botafogo, chuteira de couro e travas de cortiça, o ator acerta o cabelo, acende o cigarro, posiciona-se como um deus grego, apoiado em um banquinho. "Rodrigo fica tão concentrado que, no set, o chamamos de Heleno, sem gozação", comenta Fonseca. "E ele atende."

Orçado em R$ 8 milhões, o filme (que ainda carrega o título provisório de Heleno) vai acompanhar a trajetória de um craque singular: advogado formado, bonito, famoso, goleador mas bipolar - irascível em campo, disposto a brigar com adversários e colegas do próprio time por conta de uma jogada malfeita, Heleno era um gentleman fora do gramado, incapaz de insultar alguém. "É um personagem muito complexo, que ainda estou descobrindo", conta Santoro.

Heleno (que pode mudar para um título sem referência ao nome do jogador) não será um filme sobre futebol, apesar de seu fio condutor ser a trajetória do atacante obcecado pela vitória, que passou por Botafogo, Vasco, Santos, América carioca, além do Boca Juniors da Argentina (passagem na qual se criou o boato de que teve um affair com Evita Perón) e Atlético Junior de Barranquilla da Colômbia, onde cativou torcedores ilustres como o escritor Gabriel García Márquez. "Quando o encontrei, em um festival de cinema em Cuba, Gabo disse que, com Heleno, não havia meio termo: ou ele encantava a torcida com um show de bola ou era expulso, depois de brigar com alguém."

Mito. Assim, o plano de Fonseca, que divide o roteiro com Felipe Bragança, é recriar justamente esse mito do qual sobraram documentos esparsos - um punhado de fotos e depoimentos conflitantes. Nada de imagens em movimento, exceto alguns segundos de uma partida do Boca, recém-descobertos na Cinemateca Argentina. Criou-se, portanto, ao longo dos anos um perfil desencontrado do jogador. "Havia quem o endeusava, mas também existiam aqueles que o pintavam como demônio", lembra o cineasta, que há cinco anos trabalha para viabilizar o projeto. "No final, tanto tempo de espera serviu, ao menos, para criar uma história menos documental e mais centrada na figura humana."

Graças ao apoio do empresário Eike Batista, que acreditou no filme e despertou o interesse de outros financiadores, o público vai conhecer a história do homem que buscava a perfeição mas, vitimado pela sífilis que destruiu seu cérebro, terminou como um farrapo humano. "Há cenas muito fortes, como a única partida que Heleno disputou no Maracanã", observa Santoro, que leu toda a documentação existente, além de ter conversado com pessoas que, de alguma forma, tiveram um certo contato com o jogador. "Em 1951, já doente, ele vestiu a camisa do América que enfrentaria o São Cristóvão. Heleno ficou apenas 25 minutos em campo - há quem diga que estático, só acompanhando a bola. O seu desejo, porém, foi realizado: pisar no gramado do Maracanã."

As filmagens seguem por mais quatro semanas. Depois, serão interrompidas durante um mês, período em que Santoro vai engordar oito quilos para viver o momento crucial de Heleno de Freitas: a derrocada em um sanatório.

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