Um cotidiano impregnado de violência

Livro tem como cenário político uma era de desencantamento, frente à certeza de que o embate com os árabes se acirrava

Luis S. Krausz, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

A narrativa de Uma Certa Paz está construída sobre as trajetórias opostas de dois personagens: Ionatan, que nasceu no kibutz mas está farto da estreiteza da vida numa comunidade agrícola e sonha com as imagens glamourosas das grandes cidades, e Azaria, imigrante que acaba de concluir o serviço militar e acredita que o kibutz seja um último refúgio da justiça na terra.

Talvez a motivação de Oz ao escrever este romance, que também trata da deterioração das relações humanas numa sociedade que aos poucos se volta para o individualismo, tenha sido a constatação de que o sonho acalentado pelos pioneiros da criação do Estado Judeu, uma sociedade diferente e melhor do que as outras, estava fadado ao malogro.

O cenário político em Israel no início da década de 1980 era de desencantamento: a consciência cada vez mais aguda de que o conflito com os árabes só fazia acirrar-se; a Guerra do Líbano; o triunfo da direita nas eleições e o fortalecimento dos setores ultrarreligiosos foram golpes que demoliram o edifício construído sobre os ideais grandiloquentes daqueles que atribuíam um caráter redencionista à criação do Estado Judeu.

O livro, assim, é uma espécie de arqueologia da "normalização" da sociedade israelense, processo no qual confluem a inevitabilidade do legado diaspórico e a tragédia do judaísmo europeu; o recrudescimento da religiosidade como força política e a exaustão das formas escolhidas como remédio para regenerar a sociedade, particularmente o kibutz.

Militante pacifista de primeira hora, e ex-membro de um kibutz - que deixou à época em que escrevia este livro -, Oz gosta de afirmar que usa duas canetas: uma para escrever sobre política; outra para escrever literatura. Aqui, porém, ambas têm sua parte. A política impregna o cotidiano dos personagens, envolvidos com a militância no Partido Trabalhista e com a tradição kibutziana do "debate esclarecido", a ponto de tornar-se para eles uma espécie de razão de ser, enquanto a desilusão os precipita numa crise de valores que os torna presas fáceis de quimeras de sabor norte-americano.

Crônica da morte anunciada de um ideal, a narrativa árida e muitas vezes sofrida antecipa-se às transformações pelas quais o Estado Judeu passou nas últimas décadas e parece confirmar a visão de mundo pessimista e desiludida, própria do livro bíblico de Eclesiastes - e também de nosso tempo.

LUIS S. KRAUSZ É PROFESSOR DE LITERATURA HEBRAICA E JUDAICA DA USP E AUTOR DE

RITUAIS CREPUSCULARES: JOSEPH ROTH E A NOSTALGIA AUSTRO-JUDAICA (EDUSP)

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